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Crítica: Transexual escocesa é Jesus em peça e clama por amor ao próximo

Miguel Arcanjo Prado

22/05/2016 17h14

Jo Clifford entre santos barrocos do Museu Mineiro no FIT-BH - Foto: Guto Muniz/Divulgação

Jo Clifford entre santos barrocos do Museu Mineiro no FIT-BH – Foto: Guto Muniz/Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado
Enviado especial a Belo Horizonte (MG)*

Monopolizar o nome de Jesus para produzir discurso de ódio a quem é diferente de si é algo cada vez mais comum no Brasil. Sobretudo em relação às minorias sexuais, caso da comunidade LGBT, demonizada por muitos que afirmam falar em nome de Deus.

A peça "The Gospel According to Jesus, Queen of Heaven" (O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu) procura justamente oferecer um novo olhar para as palavras de Cristo presentes nos quatro evangelhos. E este olhar parte de uma artista transexual, a escocesa Jo Clifford, autora de mais de 80 peças e intérprete do monólogo.

A montagem, feita em parceria com o British Council, é uma das mais aclamadas atrações do FIT-BH (Festival Internacional de Teatro, Palco & Rua de Belo Horizonte), com sessões até esta segunda (23) no Museu Mineiro com entradas esgotadas.

O UOL assistiu à estreia da peça neste sábado (21). Em ambiente intimista, no caso uma sala com santos, anjos e outras obras de arte sacra barroca no Museu Mineiro, Jo Clifford, dramaturga, atriz e poetisa trans, surge em um vestido branco e tênis nos pés, para recriar a seu modo a mensagem de amor ao próximo, base do cristianismo esquecida por muitos que se dizem cristãos, sobretudo uma parcela atual de políticos intolerantes que vociferam discursos inflamados de perseguição a minorias – basta lembrar do que aconteceu com a travesti que surgiu crucificada na última Parada Gay, ameaçada até de morte e da atual tentativa no Congresso de tirar das trans o direito ao uso do nome social.

Jo Clifford usa as palavras de Cristo para pedir amor ao próximo - Foto: Guto Muniz/Divulgação

Jo Clifford usa as palavras de Cristo para pedir amor ao próximo – Foto: Guto Muniz/Divulgação

Jo utiliza-se das próprias palavras de Jesus para tocar seus espectadores, com uma voz potente e aveludada, criando um ritual de comunhão entre todos, enquanto une a contação de histórias ao teatro, discorrendo parábolas bíblicas e lembrando a lição de tolerância e amor deixada por Jesus. Ela recorda que Cristo jamais ordenou que seus fiéis atacassem com ódio as minorias. Muito pelo contrário, como lembra a peça, diante de uma multidão enfurecida por apedrejar uma mulher considerada pecadora, Jesus afirmou: "atire a primeira pedra que não tiver pecados". Sua lição, era de tolerância ao outro, o que a peça pede a seu público, distribuindo inclusive pão feito pela artista e vinho ao fim.

No decorrer da peça, na pele de uma Jesus transexual, Jo lembra que Cristo não foi amigo de religiosos poderosos, a quem chamava constantemente de hipócritas e "sepulcros caiados de branco", limpos por fora e podres por dentro. Jesus, lembra a atriz em cena, andou acompanhado de gente pobre das ruas, pessoas simples, ou seja, dos párias da sociedade, lugar onde hoje se encontram as trans, como lembrou a escocesa em entrevista ao UOL.

Jo Clifford em sua peça no FIT-BH: lição de amor - Foto: Guto Muniz/Divulgação

Jo Clifford em sua peça no FIT-BH: lição de amor – Foto: Guto Muniz/Divulgação

O espetáculo dirigido com delicadeza por Susan Worsfold aposta na simplicidade e na potência da mensagem de Cristo, unindo isso à potencialidade do teatro como um ritual. E, tais palavras ganham ainda mais força saindo da boca de uma representante de uma comunidade social tão atacada e vitimada muitas vezes até com a morte por conta da intolerância.

Ver tal peça encenada no Brasil de hoje, onde o discurso religioso de ódio ao outro é crescente, é ver o teatro se tornar espaço de resistência e também de construção de outros discursos possíveis. Porque as palavras de Cristo não pertencem a uma religião apenas, mas a toda humanidade, seja de qual gênero for. Afinal, Jesus amou a todos e deixou como síntese de seus ensinamentos o amor ao próximo como a si mesmo. O que tanto falta hoje em dia em muitos que dizem falar em seu nome.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do FIT-BH.

"The Gospel According to Jesus, Queen of Heaven" * * * *
Avaliação: Muito Bom

Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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