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Crítica: O formol e o teatro do opressor na peça Branco

Miguel Arcanjo Prado

02/05/2017 15h00

Cena da peça "Branco: O Cheiro do Lírio e do Formol": "teatro do opressor", define o professor da USP Dennis de Oliveira – Foto: André Cherri

Por Dennis de Oliveira* 
Crítico convidado

"Branco: O Cheiro do Lírio e do Formol", peça dirigida por Alexandre Dal Farra e Janaina Leite, que conta no elenco também André Capuano e Cleyton Mariano, é uma catarse de crise existencial de pessoas brancas intelectualizadas incomodadas com sua condição de privilegiadas em função das opressões de classe e raça. Digo uma catarse e não um relato, pois embora a primeira impressão possa parecer uma denúncia, é mais uma tentativa de ajuste com crises de consciência.

Uma peça que denuncia o racismo somente com atores brancos, narrada exclusivamente a partir da perspectiva branca. O enredo da peça é fragmentário, alternando uma narrativa do cotidiano de uma família branca com traços de sulistas norte-americanos decadentes e suas crises existenciais com as crises existenciais de um intelectual pretensamente iluminista tentando discutir o racismo na escritura de uma peça. Um autoflagelo da condição de privilegiado social e racialmente expresso a partir de falas psicologizadas invertendo os sinais: de repente, a vítima do racismo não é o negro e negra oprimida, mas o branco opressor que mergulha em uma crise existencial ao se descobrir privilegiado e opressor.

As crises existenciais são expressas quando o autor fala em situação de pouca luz e iluminado por um feixe de luz e visualizado em um telão, gravado por uma câmera. Falando para si mesmo, uma confissão de seu crime perfeito do racismo, como diz o professor Kabengele Munanga, para si mesmo e somente visto a partir da projeção na tela. Talvez pela vergonha de encarar diretamente o público, a intermediação tecnológica suaviza a situação, recurso típico de uma sociedade da mediação tecnológica em que os cabos de fibra óptica e as redes wireless permitem conexões que se sobreponham aos compromissos exigidos pela relação cara a cara.

O fio condutor da narrativa da mimese da família sulista estadunidense que entre falas e vômitos pouco tem a fazer para apagar os rastros da sua decadência é desviado para as crises de consciência do intelectual iluminista dramaturgo que não se conforma com o racismo e nem com o seu privilégio. Parece querer a clemência da sua condição em uma tentativa brechtiana de cutucar uma plateia que tem a certeza de ter a maioria de brancos. Uma clemência que terá a certeza de ter e que se busca apagar tal situação com o convite a alguns atores negros para debater a situação (no dia em que fui assistir à peça, isto não ocorreu) numa clara deturpação do que propunha Boal e o seu teatro do oprimido. Não é uma exortação do público a combater a opressão, mas sim a confortar os opressores com sua condição. É o teatro do opressor.

A tentativa niilista de trazer a morte como uma resposta para a situação pouco a modifica. A morte pode chocar quem está nos lugares de privilégio, mas não onde é banalizada, para quem vivencia lugares em que jovens negros e negras morrem cotidianamente pelos tiros da polícia, dos esquadrões da morte ou ainda pelos mecanismos sistêmicos de opressão social. Ou a morte simbólica dada pela negação das oportunidades na educação e no emprego.

Nisto, o formol é meramente uma metáfora para os brancos que vivem nos campos dos lírios recuperarem a ideia do sofrimento freudiano da certeza da morte. Uma condição de mal estar estrutural dita por Freud, recuperando Nietzsche, mas que não é vivenciada igualmente. No fim, a peça "Branco: O Cheiro do Lírio e do Formol" quer confortar quem vive nas zonas privilegiadas que todos somos vítimas de um sistema opressivo. Mas há opressores e oprimidos, privilegiados e desprivilegiados e uma peça somente com atores brancos é como uma imagem – vale mais que mil palavras.

*Dennis de Oliveira é professor associado da Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo) nos cursos de graduação em Jornalismo e de pós graduação em Mudança Social e Participação Política (Promuspp) e Integração da América Latina (Prolam). É chefe de departamento dos cursos de Jornalismo e Editoração. Coordenador do Centro de Estudos Latino Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), onde criou o curso de especialização Cultura, Educação e Relações Étinico-Raciais. Autor do livro "Luta Contra o Racismo no Brasil" (Ed. Publisher, 2017). Membro da Rede Antirracista Quilombação. E-mail: dennisol@usp.br

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Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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