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Diretora protesta após Justiça censurar peça com travesti no papel de Jesus

Miguel Arcanjo Prado

16/09/2017 09h40

Renata Carvalho, atriz e travesti, vive Jesus em peça de teatro "O Evangelho Segundo Jesus: Rainha do Céu", que foi censurada pela Justiça – Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado

Após a Justiça censurar a apresentação nesta sexta (16) da peça "O Evangelho Segundo Jesus: Rainha do Céu" no Sesc Jundiaí, no interior de São Paulo, a diretora da obra, Natalia Mallo, protestou e classificou a decisão de "um tratado de fundamentalismo e preconceito", lembrando que "o Brasil é o país mais transfóbico do mundo". O espetáculo solo é feito pela atriz e travesti Renata Carvalho, que interpreta Jesus. A decisão de censurar a peça foi tomada pelo juiz Luiz Antonio de Campos Júnior, da 1ª Vara Cível de Jundiaí.

Como a Constituição de 1988 garante a liberdade de expressão artística, acabando com a censura no Brasil, a decisão judicial deixou a equipe da peça assustada, assim como a classe artística, que vem demonstrando apoio ao espetáculo nas redes sociais. O fato acontece na mesma semana do polêmico cancelamento da exposição "Queermuseu" no Santander Cultural em Porto Alegre.

"O Evangelho Segundo Jesus: Rainha do Céu" traz a mensagem de tolerância e amor de Cristo, que deixou ensinamentos como "não julgueis, para que não sejais julgado", "amarás o teu próximo como a ti mesmo" e "quem não tiver pecado atire a primeira pedra".

Renata Carvalho afirmou ao Blog do Arcanjo do UOL que faz questão de ser chamada de travesti e não transexual. Ela conta que faz isso para tirar da palavra travesti o estigma social e a forte carga de preconceito ainda existente. Segundo a atriz travesti, "muitos dos que dizem hoje representar Jesus certamente o crucificariam novamente caso ele voltasse".

A dramaturga escocesa transexual Jo Clifford durante sessão da peça no FIT-BH: sucesso de público e de crítica – Foto: Guto Muniz/Divulgação

O texto é da dramaturga transexual escocesa Jo Clifford, que já apresentou ela mesma a obra no Brasil em 2016 com sucesso de público e crítica e ingressos esgotados no Festival Internacional de Teatro, Palco & Rua, o FIT-BH. Na época, ela declarou ao Blog do Arcanjo do UOL, explicando a mensagem que sua peça traz: "O que fiz na verdade foi ler o Evangelho, a Bíblia, meditar… E fiquei profundamente movida pela inteligência e compaixão que Jesus demonstrou em todas as suas palavras, na mensagem de amor que ele deixou, de amar ao próximo como a si mesmo, independentemente da cor, do gênero, do sexo".

A versão brasileira é traduzida e dirigida por Natalia Mallo. No texto, há referências a passagens dos Evangelhos e falas de de Jesus sobre o amor ao próximo e a hipocrisia dos fariseus.

Esta é a primeira vez que uma apresentação da obra, em cartaz com sucesso de público e crítica há mais de um ano, é censurada pela Justiça. O Blog do Arcanjo do UOL assistiu à peça no último sábado (9), quando foi apresentada com sessão lotada e fortemente aplaudida na Cia. do Feijão, em São Paulo.

Uma espectadora, que se identificou como cristã ao fim da obra, fez uma declaração emocionada de que a peça a tinha tocado profundamente, reavivando seus valores cristãos, sobretudo pelas lições de amor ao outro dadas por Jesus nos Evangelhos e presentes no texto, lições estas que muitas vezes são deturpadas e transformadas em mensagem de ódio por alguns líderes religiosos cuja mensagem em nada se aproxima à de Cristo.

Renata Carvalho em "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu" – Foto: Bob Sousa

Leia a declaração na íntegra da diretora Natalia Mallo após a censura pela Justiça da peça "O Evangelho Segundo Jesus: Rainha do Céu", com Renata Carvalho:

"Desde a nossa estreia, há um ano, passamos por diversas situações de violência: ameaças de censura, ameaça física, insultos e difamação na internet, etc. Mas esta é a primeira vez que o espetáculo é impedido de acontecer.

O conteúdo da liminar concedida pelo juiz Luiz Antonio de Campos Júnior, da 1º Vara cível de Jundiaí, que resultou no cancelamento, é um tratado de fundamentalismo e preconceito.

"… muito embora o Brasil seja um Estado Laico, não é menos verdadeiro o fato de se obstar que figuras religiosas e até mesmo sagradas sejam expostas ao ridículo, além de ser uma peça de indiscutível mau gosto e desrespeitosa ao extremo, inclusive. De fato, não se olvide da crença religiosa em nosso Estado, que tem JESUS CRISTO como o filho de DEUS, e em se permitindo uma peça em que este HOMEM SAGRADO seja encenado como um travesti, a toda evidência, caracteriza-se ofensa a um sem número de pessoas"

Todas as situações de violência que passamos tiveram algo em comum: contestam a presença de uma travesti em cena interpretando Jesus.

Afirmar que a travestilidade da atriz representa em si uma afronta à fé cristã ou concluir, antes de assistir o trabalho, que é um insulto à imagem de Jesus é, do nosso ponto de vista, negar a diversidade da experiência humana, criando categorias onde algumas experiências são válidas e outras não, algumas vidas tem valor e outras não. São os discursos e práticas que tornam o Brasil um país extremamente desigual, e um território inóspito para quem vive fora da normatividade branca, cisgênera e heterossexual.

Desde sua estreia no Brasil a peça tem tido uma resposta do público muito positiva, lotando teatros e criando espaços de diálogo, resistência e encontro. Temos passado por diversos espaços culturais e festivais (Filo, Porto Alegre em Cena, Cena Contemporânea, Fiac). Instituições importantes da cultura como SESC, Itaú Cultural, Instituto Tomie Ohtake e outras também abraçaram o trabalho demonstrando disponibilidade em dar visibilidade aos temas que ele aborda. Também recebemos o apoio da Igreja Anglicana do Brasil.

Mas mais importante do que tudo isso, é o fato da peça ter se tornado dispositivo de debate sobre temas sociais urgentes, graças à sua capacidade de questionar mecanismos de opressão estruturais e institucionalizados.

Desde o início temos promovido instâncias de diálogo, educação e debate e buscado levar o trabalho não só a festivais e teatros centrais mas a locais descentralizados, carentes de programação cultural e que abrigam comunidades vulneráveis. Estivemos em prisões, abrigos, centros de acolhida, sedes de coletivos e ativismo, e estivemos na rua.

Conhecemos de perto a realidade de travestis e transexuais, e de outros grupos minorizados, e justamente por isso, fazemos constantemente um chamado à reflexão sobre a desigualdade gritante e naturalizada em que vivemos.

O Brasil é o país mais transfóbico do mundo. Diariamente travestis são espancadas e assassinadas sem que a mídia, a opinião pública ou o sistema de justiça reconheçam a gravidade e o inaceitável do fato. Estas pessoas vivem e morrem na invisibilidade.

Convido você, que está lendo isto, a escrever no google "travesti assassinada em ………." (preencher com qualquer cidade do Brasil). O resultado vai ser sempre devastador, brutal e alarmante.

Houve uma grande mobilização e articulação para que o espetáculo pudesse ser cancelado, uma verdadeira estratégia reunindo diversos interesses e interessados e incluindo planejamento, timing e construção de narrativas. Censurar um espetáculo, em nome dos bons costumes, da fé e da família brasileira parece ser, para alguns fariseus, mais importante e prioritário do que olhar para a sociedade e tentar fazer alguma contribuição concreta para mudar o quadro de violência em que estamos todas e todos soterrados.

O espetáculo, escrito por Jo Clifford, busca resgatar a essência do que seria a mensagem de Jesus: afirmação da vida, tolerância, perdão, amor ao próximo. Para tanto, Jesus encarna em uma travesti, na identidade mais estigmatizada e marginalizada da nossa sociedade. A mensagem é de amor. Mas é também queer e provocadora. Não é comportada nem se deixa assimilar. É de carne e fala de um corpo político, alterado, constantemente violentado e oprimido. Mas também cheio de vida, alegria e potência. A Rainha Jesus contesta a tutela sobre os corpos, o patriarcado e o capitalismo. E abençoa a todos e todas por igual."

Renata Carvalho faz versão do texto da escocesa Jo Clifford – Foto: Bob Sousa

Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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