Topo
Miguel Arcanjo

Miguel Arcanjo

Categorias

Histórico

Racismo de William Waack pode ser comprovado por especialistas

Miguel Arcanjo Prado

09/11/2017 07h02

Paulo Sotero e William Waack no "Jornal da Globo": comentários racistas podem ser comprovados por especialistas, como os de leitura labial que o "Fantástico" utilizava ou peritos em áudio e vídeo – Foto: Reprodução/Globo

Por Miguel Arcanjo Prado

O vídeo que circula na internet desde esta quarta (8) mostra o jornalista e apresentador do "Jornal da Globo" William Waack proferindo declarações racistas após ouvir buzinas que o incomodavam antes de fazer um link ao vivo direto de Washington. Ele estava ao lado do comentarista Paulo Sotero, diretor do Brazil Institute no Wilson Center, com quem conversou  sobre o resultado das eleições presidenciais norte-americanas há exato um ano. A veracidade das declarações podem facilmente ser comprovadas por especialistas, como os de leitura labial do "Fantástico" ou peritos em áudio e vídeo. Basta consultá-los.

"Tá buzinando por quê, seu merda do cacete? Não vou nem falar, porque eu sei quem é… É preto. É preto!", diz Waack no vídeo, após ouvir o som de uma buzina, ao que Paulo Sotero sorri de forma cúmplice, concordando com a cabeça. Não satisfeito, o apresentador do "Jornal da Globo" complementa: "É coisa de preto!". Ao que Sotero responde: "Sim", enquanto parece segurar o riso.

No momento em que o diálogo ocorreu eles ainda estavam fora do ar, aguardando para entrar ao vivo, mas já devidamente microfonados e diante das câmeras da emissora, mas, ao que tudo indica, certos da impunidade das declarações, não fosse o vídeo que vazou um ano depois. Após a polêmica, ambos afirmam não se lembrar dos comentários racistas.

Waack, em comunicado da Globo, mesmo sem admitir o racismo, pede "desculpas àqueles que se sentiram ultrajados pela situação". Já Paulo Sotero afirmou à imprensa que a conversa "não é algo que tenha ficado registrado" em sua "memória", afirmando que estava concentrado e que não consegue ouvir o que Wacck lhe diz no vídeo, no qual sorri e concorda com um sonoro "sim" após escutar o colega. "Surpreende-me a informação sobre comentário racista. Não acho graça nenhuma em racismo e não creio que o William tenha postura diferente sobre o assunto", afirmou Sotero.

Com a repercussão instantânea do vídeo, a Globo resolveu, no mesmo dia, em atitude inevitável e coerente com sua política atual, como definiu o colunista do UOL Mauricio Stycer, afastar William Waack do comando do "Jornal da Globo". O mesmo noticiário abriu, nesta quarta (8), com a nota oficial da emissora sobre o caso, lida por Renata Lo Prete, que substituiu o apresentador afastado. O comunicado define que os comentários de Waack no tal vídeo são, "ao que tudo indica, de cunho racista", e que o afasta do telejornal "até que a situação esteja esclarecida".

Se a Globo tem ainda alguma dúvida sobre o racismo de William Waack — tentar empurrar a versão de que ele não disse "preto" seria menosprezar a inteligência de qualquer pessoa que viu o vídeo —, que consulte especialistas em leitura labial, como aqueles que ela mesma utilizava no famoso quadro do "Fantástico", aquele no qual revelava o que os jogadores e técnicos de futebol diziam em campo.

Caso não bastem os especialistas em leitura labial, a emissora pode também consultar bons peritos em áudio e vídeo, de preferência vários, para que possam atestar o que praticamente todo mundo entendeu no vídeo viralizado da conversa entre William Waack e Paulo Sotero.

Assim, depois de comprovado oficialmente o racismo, seria por bem a Globo tomar uma decisão definitiva em relação a seu apresentador, para que fique evidente o que a emissora reforça em seu comunicado: que a Globo é "visceralmente contra o racismo em todas as suas formas e manifestações" e que "nenhuma circunstância pode servir de atenuante". Nem mesmo quando o racista em questão for um "jornalista respeitado", neste caso, William Waack.

Veja o vídeo:

Leia, abaixo, o comunicado da Globo sobre o afastamento de William Waack:

"A Globo é visceralmente contra o racismo em todas as suas formas e manifestações. Nenhuma circunstância pode servir de atenuante. Diante disso, a Globo está afastando o apresentador William Waack de suas funções em decorrência do vídeo que passou hoje a circular na internet, até que a situação esteja esclarecida.

Nele, minutos antes de ir ao ar num vivo durante a cobertura das eleições americanas do ano passado, alguém na rua dispara a buzina e, Waack, contrariado, faz comentários, ao que tudo indica, de cunho racista. Waack afirma não se lembrar do que disse, já que o áudio não tem clareza, mas pede sinceras desculpas àqueles que se sentiram ultrajados pela situação.

William Waack é um dos mais respeitados profissionais brasileiros, com um extenso currículo de serviços ao jornalismo. A Globo, a partir de amanhã, iniciará conversas com ele  para decidir como se desenrolarão os próximos passos."

Curta Miguel Arcanjo no Facebook
Siga Miguel Arcanjo no Instagram

Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.