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Boechat mostrava diariamente que a velha escola de jornalismo é fundamental

Miguel Arcanjo Prado

12/02/2019 09h28

Ricardo Boechat (1952-2019): representante da velha escola de jornalismo, sempre tentando alcançar a verdade dos fatos com coragem e críticas ao poder – Foto: Divulgação – Band – Blog do Arcanjo – UOL

O jornalista Ricardo Boechat, que morreu nesta segunda (11) aos 66 anos vítima de uma queda de helicóptero em São Paulo, vinha de uma geração formada pela velha escola do jornalismo, aquela ainda sem Google, computador ou redes sociais. A que que usava o telefone e a vida real para descobrir furos de modo mais competente e consistente que a nova geração que chega à profissão.

Muitos dos que hoje começam no jornalismo, salvo preciosas exceções, mesmo tendo à mão todas as facilidades tecnológicas para apurar, parecem não saber como fazer, quando não morrem de preguiça de pegar o telefone ou sair pra vida para conversar com gente, fazer boas perguntas e descobrir notícia.

Morte de Boechat é perda irreparável

Hoje, nas redações que sobraram tão sucateadas, a grande maioria é dependente da agenda oficial, de releases de assessores, de secretarias de comunicação e das redes sociais. Muitas vezes, agem feito robôs, copiando e colando.

Sei que sou privilegiado de ainda ter convivido nas redações pelas quais passei com a geração de jornalistas pré-internet, a de Boechat.

Gente que me ensinou, às vezes de forma dura, mas eficiente, o melhor do que sei dessa minha tão combalida profissão. A cada um desses chefes e colegas que tanto me exigiram e ensinaram, sou diariamente grato.

Porque jornalismo sem curiosidade, coragem e atrevimento não vale a pena. Sem a obsessão pela verdade, mesmo que ela seja difícil de ser alcançada. Democraticamente, é preciso questionar — e não bajular — quem está no poder, seja ele qual for.

Sem isso, jornalismo vira um prato insosso, frio e oficialista.

A morte de Boechat, e sua comoção junto ao público e colegas de profissão, só nos evidencia que a velha escola de jornalismo, que ele exercitava diariamente, ainda é fundamental, sobretudo se quisermos viver em uma democracia.

Porque o bom jornalismo sempre vai revelar algo que alguém não gostaria de ver publicado; todo o resto é publicidade, já nos ensinou George Orwell.

Que todos nós, jornalistas que sobramos, tentemos ser, diariamente, um pouquinho Boechat. Essa é a melhor maneira de respeitarmos o legado que ele e sua geração nos deram.

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Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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