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Sucesso em Zorro, Bruno Fagundes diz que ataque à cultura une os artistas

Miguel Arcanjo Prado

12/09/2019 08h41

O ator Bruno Fagundes, 30 anos: colhendo o sucesso como protagonista do musical "Zorro" – Foto: Sergio Baia – Divulgação – @miguel.arcanjo UOL

Aos 30 anos, o ator Bruno Fagundes vive um momento importante em sua carreira nos palcos. Ele é o protagonista do musical "Zorro – Nasce uma Lenda", em cartaz no 033 Rooftop, em São Paulo. Além disso, ele ainda está na série da Netflix "3%".

Filho dos também atores Antonio Fagundes e Mara Carvalho, com quem contracenava na comédia de sucesso "Baixa Terapia" antes de assumir o posto de astro da superprodução musical, Bruno comemora a atual fase de maturidade na carreira.

Nesta exclusiva Entrevista de Quinta concedida ao colunista Miguel Arcanjo, o artista analisa seu atual momento, conta como foi deixar a peça com os pais para ser o Zorro, revela os bastidores da preparação e ainda comenta a atual situação da cultura no Brasil.

"Onde tem sombra, tem luz. Isso tem promovido muita resistência, muita união. Vejo a classe teatral mais unida, os atores mais preocupados com o mercado como um todo, não só com o seu próprio umbigo, observando em como a sua própria produção artística vai afetar o mercado e isso é muito saudável. Ao mesmo tempo que existe uma insegurança do que está por vir, tem também uma força por trás, que faz a gente dar a mão e não soltar", avalia.

Leia com toda a calma do mundo.

Bruno Fagundes em cena da peça "A Lua Sobre o Tapete", em 2007 – Foto: Silvana Garzaro – Arquivo @miguel.arcanjo

Miguel Arcanjo Prado — O que aquele Bruno que eu vi no porão do CCSP começando a carreira em 2007 com "A Lua Sobre o Tapete" tem de igual e de diferente do Bruno protagonista em "Zorro"?
Bruno Fagundes — Ao mesmo que tem muita coisa diferente, muita coisa continua igual. Desde aquela época, a minha vontade sempre foi a mesma, de acertar, crescer e amadurecer, evoluir como ator. Minha dedicação e a paixão pelo que eu faço já existiam. O que eu acho que difere um ator do outro é às vezes apenas a oportunidade. Fui muito abençoado por ter tido, nesses 12 anos, grandes oportunidades de poder exercitar isso. A prática é coisa muito bonita, porque quanto mais a gente faz, mais a gente aprende. Nesse sentido o trabalho do ator é essencial, quanto mais "horas-palco" você tem, mais recursos você cria, e não estou nem falando de certo ou errado, mas sim de ferramentas para conseguir exercer várias possibilidades do trabalho. Eu sempre falei que acho que o ator precisa de vida, quanto mais vida ele tem, mais lugares consegue alcançar. Nesse sentido algo que mudou de lá pra cá, com certeza, foi a minha maturidade, o quanto eu vivi e experimentei, cresci como pessoa e consequentemente cresci como ator, mas ainda constantemente aprendendo, reconhecendo cada vez mais minhas forças, minhas fraquezas, mas sempre com a mesma paixão e dedicação.

Bruno Fagundes com os pais, Antonio Fagundes e Mara Carvalho, e a madrasta, Alexandra Martins, na comédia de sucesso "Baixa Terapia"; na qual divide a produção com o pai – Foto: Divulgação – @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — Com foi tomar a decisão de sair de "Baixa Terapia" para fazer o "Zorro"? Conversou com seu pai? O que ele falou?
Bruno Fagundes — Todo processo todo foi muito desafiador, saí totalmente da minha zona de conforto. Eu estava em um trabalho onde eu já tinha feito 340 apresentações, há dois anos e meio em cartaz, ou seja, estava no que costumo chamar de "velocidade cruzeiro", era um lugar tranquilo, e eu decidi investir em uma aventura que eu não sabia qual seria o resultado. E sim, conversei com o meu pai, porque além de colegas de trabalho, nós somos sócios na produção do "Baixa Terapia", na qual eu ainda faço parte, só que de outra forma. A produção ainda é minha e dele, então obviamente não abandonei o projeto totalmente, nesse meio tempo ensaiei um ator para entrar no meu lugar, foi um processo muito pensado e calculado, não foi uma coisa de última hora. Foi algo que eu demorei muito para tomar a decisão e eu conversei muito com todos os envolvidos, não só meu pai, mas o elenco todo. Nós somos uma cooperativa, então a decisão de um, pode afetar todos. Demorei cerca de um mês e meio para decidir. Meu pai ficou muito feliz, ele mais do que ninguém quer eu vá atrás dos meus sonhos, que eu cresça como profissional, que eu vá atrás de algo que me dê prazer. Além de tudo, esse desafio já era algo que eu estava querendo há muito tempo, foi a oportunidade perfeita.

Zorro de Antonio Banderas no cinema foi primeiro contato de Bruno Fagundes com o personagem que hoje interpreta no musical em SP – Foto: Divulgação @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — Qual o primeiro contato que você teve com o "Zorro" em sua vida? O que mais gosta nesse personagem?
Bruno Fagundes — O primeiro contato que tive com o Zorro na vida eu acho que foi com o filme do Antonio Banderas mesmo. Eu era bem jovem quando o filme saiu e me lembro de ter assistido e gostado muito. Sabia pouco sobre o Zorro na época, mas já achava um personagem fascinante. Costumo dizer que ele é o último herói "analógico", não tem superpoderes, ele é um herói humano, que tem o nobreza de lutar com o inimigo olhando no olho, não temos mais isso. É muito bonito, muito humano, e é isso que mais gosto nele. Na montagem da peça, produzimos o que chamamos de "pré-Zorro", é um momento de como exatamente ele virou esse herói. A história se passa desde a adolescência dele até o momento no qual toma essa decisão, de se tornar um herói. Entender toda a história dele, quais foram as motivações, conflitos, o porquê ser um herói coloca você sempre em risco, sempre em alerta, se escondendo. A peça aborda tudo isso! O fator "humano" desse herói foi o que mais me conquistou, justamente porque poderia ser qualquer um de nós. Essa foi exatamente a nossa escolha, mostrar que ele é um ser que erra, que é capaz de chorar e ainda tem muitos conflitos.

Bruno Fagundes protagoniza musical "Zorro Nasce uma Lenda" – Foto: Manuela Scarpa – Brazil News – @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — O que foi mais difícil no processo de virar o Zorro? 
Bruno Fagundes — O processo do Zorro foi muito desafiador, porque nós praticamente criamos um musical original, não é uma franquia que trouxemos pronta, foi totalmente do zero. Tivemos muito pouco tempo de ensaio, apenas dois meses, sendo que temos cerca de trinta pessoas no palco. Levantar algo desse tamanho do zero é muito complexo! Talvez poucas pessoas saibam disso, mas para você fazer cinco minutos de coreografia, demora cerca de cinco horas. Então imagina um show inteiro, de uma hora e meia, o quanto leva para ser produzido e ensaiado. Fora isso, lidar com a questão de sonoridade, das músicas, instrumento, atuação, tudo isso junto é realmente muito trabalhoso e complexo.

Miguel Arcanjo Prado — Como superou esse desafio?
Bruno Fagundes — Superei o desafio de fazer o Zorro respondendo com trabalho, enfrentando todas as dificuldades, o canto para mim não é uma coisa relativamente nova, porque faço aula de canto desde os dezenove anos, mas cantar com esse rigor de musical, com pessoas tão talentosas, é complexo. Nós temos bailarinos atores, cantores, e estar perto dessas pessoas me inspirou muito. Ter o rigor de cantar dois solos, dois duetos, em um espetáculo desse tamanho, no papel do protagonista, foi um desafio enorme. Sou muito dedicado e acredito que consegui chegar em um bom lugar. Estou contente com o resultado e as pessoas têm gostado muito, o que me deixa mais feliz ainda.

Elenco do musical "Zorro Nasce uma Lenda" – Foto: Manuela Scarpa – Brazil News – @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — Você gosta do mundo dos musicais, de cantar e dançar também? Como surgiu isso na sua vida? Quer fazer mais musicais?
Bruno Fagundes — Sempre flertei com isso de alguma forma, porque gosto muito de cantar, toco piano e a música sempre fez parte da minha vida de alguma forma. Já fiz dois shows, sempre tive muito prazer em cantar. Dançar já foi uma coisa totalmente nova para mim, até eu entrar nessa produção, tinha feito talvez só uma aula de dança na vida, então era tudo muito novo, ainda mais a dança flamenca, que é tão específica e técnica. O canto surgiu na minha vida muito cedo, sempre fui muito musical e o piano foi muito importante, toco desde os 7 anos de idade. Certo dia, percebi que eu era melhor de ouvido do que de teoria, e isso trouxe um instinto de querer juntar as duas coisas, querer cantar e tocar, e isso só cresceu cada vez mais. Com a onda dos musicais, uma época da minha vida comecei a me preparar fortemente para entrar nesse tipo de apresentação, foi aí que comecei as aulas de canto regularmente. Mas só fiz um musical, que foi "O Senhor Das Moscas", e agora estou no Zorro. Eu gosto de fazer trabalhos assim, a música como dramaturgia é uma ferramenta muito legal para contar uma história. Para mim, é o encontro perfeito, desde que tenha um bom personagem. Ter uma boa história e um bom papel. Se eu estiver contando uma história que eu acredito, um personagem que me representa, eu vou sempre querer fazer, independente do gênero. Eu penso menos no gênero e mais no que eu quero comunicar nesse momento. E o Zorro, nesse sentido, faz muito eco em mim, porque estava há muito tempo querendo falar das questões de humanidade de uma forma otimista, e a peça tem muito disso. Falamos de esperança, amor, sobre ser quem você deseja ser, enfrentar sua verdade, seu destino, se reconectar com a família. É sempre bom relembrarmos o poder dessas coisas positivas de uma forma otimista.

Marcos Mion, Nicole Rosemberg, Letícia Spiller e Bruno Fagundes estão no musical "Zorro – Nasce uma Lenda" – Foto: Manuela Scarpa – Brazil News –  @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — Como está sendo o jogo cênico com os outros atores, Letícia Spiller, Marcos Mion e Nicole Rosemberg?
Bruno Fagundes — Esse elenco é realmente muito especial, sou muito apaixonado por todos. Além dos três, nós temos dezoito pessoas, e são todas incrivelmente talentosas. É um dos elencos mais incríveis com que já trabalhei, super disciplinados. A gente se diverte, se ajuda, se inspira demais. A Letícia é uma parceirassa, maravilhosa, nunca tinha trabalhado com ela. Nos encontramos no trabalho de uma forma totalmente especial, nesse desafio tão grande para nós dois. Com o Mion a mesma coisa, também não nos conhecíamos, e de repente estamos aqui vivendo irmãos, está sendo algo muito legal. Com a Nicole, a gente se conectou muito rapidamente, sou apaixonado por ela. A gente se ajuda, se apoia o tempo todo, crescemos juntos dentro do processo. O ponto alto do Zorro são as pessoas.

Bruno Fagundes contracena com o pai, Antonio Fagundes, na novela "Meu Pedacinho de Chão", na Globo, em 2014 – Foto: Divulgação – @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — Sua última novela na Globo foi "Meu Pedacinho de Chão", em 2014. Está com saudade de fazer tv? Quer voltar às novelas?
Bruno Fagundes — Eu acho muito engraçado quando as pessoas perguntam se eu estou com saudade de fazer TV. Eu tenho feito TV, mas não em um canal aberto! [risos]. Estou na terceira temporada de 3%, da Netflix, que é um produto para televisão. Por mais que seja uma empresa de internet, um serviço de streaming, na sua maioria o resultado final é para TV. Então, eu me sinto fazendo televisão, apesar de ser em uma linguagem de cinema, acho que estou dentro do veículo. Estou adorando essa experiência e eu já estou lá desde 2017. Foi um processo muito bom, e de alguma forma não me possibilitou estar em uma novela, porque não dá para estar em dois lugares ao mesmo tempo, mas não é um porta que eu fechei! De maneira nenhuma! Eu adorei ter feito uma novela e, se tiver oportunidade, farei muitas outras. Estou completamente aberto, quero fazer tudo o que surgir, não faço muita escolha, vou abraçando tudo que vai aparecendo. Se surgir uma oportunidade farei com o maior prazer, com a mesma dedicação e paixão.

Tal pai, tal filho: Antonio Fagundes nos anos 1980; e Bruno Fagundes em 2019 – Fotos: Reprodução e Gracielle Galvão/Divulgação – @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — Você acha que as séries estão abrindo o mercado de trabalho para os atores em SP?
Bruno Fagundes — Acredito que sim, não só para nós atores, mas para produtores, diretores, roteiristas. É muito bom a gente criar um ambiente competitivo onde a TV aberta não é a única forma de consumo. É muito bom termos o streaming vindo para o Brasil e mexendo no mercado com tantas produtoras e ideias, com uma enorme variedade de conteúdo, se tornando uma coisa saudável para todo mundo, inclusive para as grandes empresas que fazem novelas e estão aí consolidadas no mercado. Estamos em uma fase politicamente bem complicada e amedrontadora, mas estamos em fase produtiva desse tipo de serviço, e é bom nós aproveitamos mesmo e criarmos uma linguagem própria, gerando oportunidades, que é o mais legal ainda.

Bruno Fagundes é Zorro – Foto: Gal Oppido/Divulgação – @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — Como você enxerga o cenário atual da cultura no Brasil?
Bruno Fagundes — Fico bastante preocupado com esse desmanche da cultura, porque é ela que forma o país. A gente se reconhece através da cultura, aprendemos quem nós somos e quais são nossos pares através dela. Quando você vê uma política cultural, você compreende o que fez o Brasil se tornar o que ele é. Somos um país tão grande culturalmente, com tantas possibilidades, estamos vendo aí um total descaso, o que me preocupa muito. Ao mesmo tempo, eu sempre acho que onde tem sombra, tem luz. Isso tem promovido muita resistência, muita união. Vejo a classe teatral mais unida, os atores mais preocupados com o mercado como um todo, não só com o seu próprio umbigo, observando em como a sua própria produção artística vai afetar o mercado e isso é muito saudável. Ao mesmo tempo que existe uma insegurança do que está por vir, tem também uma força por trás, que faz a gente dar a mão e não soltar. Bater no peito, se honrar do que faz e continuar produzindo, indo atrás de fazer o nosso teatro, de se comunicar, de contribuir de alguma forma. Acho que o cenário está bastante incerto, mas ao mesmo tempo isso tem criado essa força revolucionária, uma união muito boa e que eu espero que assim permaneça.

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Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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