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Crítica: Chaves - Um Tributo Musical ressalta lado triste do personagem

Miguel Arcanjo Prado

18/09/2019 09h27

Cena de Chaves – Um Tributo Musical: olhar mais melancólico para a série que diverte gerações – Foto: Stephan Solon/Divulgação – @miguel.arcanjo UOL

Quem vai assistir a "Chaves – Um Tributo Musical" no Teatro Opus, em São Paulo, pode ter uma sensação de estranhamento logo de cara. Afinal, o que vemos a princípio não é a tal vila que povoa a memória afetiva, mas palhaços em polvorosa na entrada do céu. Lá, acaba de chegar o mexicano Roberto Bolaños (1929-2014) — interpretado por Fabiano Augusto —, o criador e protagonista da série exibida com sucesso no Brasil há mais de três décadas pelo SBT.

Tal premissa é o mote que vai acompanhar toda a montagem com dramaturgia e direção musical de Fernanda Maia e direção geral de Zé Henrique de Paula: apresentar o protagonista, sua turma e até mesmo seu criador, todos amados por diversas gerações de brasileiros, a partir de um novo ponto de vista, bem mais questionador e melancólico do que estamos acostumados.

Leia reportagem especial do UOL sobre Chaves – Um Tributo Musical, por Paulo Pacheco

Tal mirada ressalta as características dramáticas — e tristes — do personagem-título, realçando sua pobreza, fome, orfandade e abandono, o que dá um nó na garganta do público e faz chorar copiosamente muitos espectadores, com direito a soluços nas cenas finais.

É como se a dramaturgia e direção quisessem fazer o público enxergar uma dura realidade, bem diferente do envelope fantástico e leve proposto originalmente por Bolaños e que foi, justamente, a razão de seu sucesso.

A releitura é dicotômica em seu próprio tributo, já que não pretende sedimentar e aplaudir o já feito, mas também colocá-lo sob ótica questionadora, como chega a fazer o próprio Bolaños da peça, quando se pergunta como fez humor com um menino naquela situação. É realmente um belo soco no estômago.

Personagens do imaginário popular criados por Bolaños se misturam a palhaços em Chaves – Um Tributo Musical – Foto: Stephan Solon/Divulgação – @miguel.arcanjo UOL

A superprodução usa Bolaños de veículo para reverenciar o circo brasileiro, muitas vezes esquecido pela grande indústria cultural do país sem memória, sobretudo aqueles palhaços que ajudaram a construir a cena artística nacional, a começar de Benjamin de Oliveira (1870-1954), palhaço negro que no musical é o líder daquele macambúzio céu, interpretado com lisura pelo ator-palhaço Milton Filho.

Apesar da boa intenção, em certos momentos, a interferência brechtiana dos palhaços na história de Chaves parece insistir em roubar a cena do que todos esperavam realmente ver em uma montagem que se chama "Chaves – Um Tributo Musical". Por vezes, faz com que o musical perca ritmo, o que provoca certo enfadonho no espectador.

É claro que o público sente certo alívio ao poder voltar sem culpa ao riso alienado da infância quando o afinado elenco reproduz no palco episódios do "Chaves" com suas típicas situações simples e divertidas, tanto na vila onde moram quanto na escola frequentada pelas crianças sob comando do Professor Girafales, ambas reconstruídas no palco na cenografia de Eron Reigota e Bruno Anselmo. É preciso ainda destacar o minucioso figurino e visagismo de Fábio Namatame.

Cena coreográfica de Chaves – Um Tributo Musical – Foto: Stephan Solon/Divulgação – @miguel.arcanjo UOL

Mesmo atuando em um conjunto coeso, a atriz Carol Costa se destaca pela verossimilhança e carisma de sua Chiquinha, bem como Mateus Ribeiro impressiona com seu melancólico Chaves, com trabalho de corpo impecável. O Quico de Diego Velloso também demonstra farto estudo de personagem, em uma hábil construção que diverte o público. O trio é, certamente, o melhor de se ver em cena. Por sua vez, Andressa Massei demonstra técnica econômica e precisa na construção de Dona Clotilde, a Bruxa do 71, sendo o destaque entre os personagens adultos.

"Chaves – Um Tributo Musical" é um espetáculo ousado, que faz o teatro se impor sobre a TV, o drama sobre o humor, o épico de Brecht sobre o musical da Broadway. Tal atrevimento artístico é um mérito e leva o público a pensar sobre si mesmo.

Chaves, Um Tributo Musical
Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Avaliação: Bom ✪✪✪
Teatro Opus (av. das Nações Unidas, 4777, Alto de Pinheiros, São Paulo, SP). Sexta, 21h, sábado, 16h e 20h, domingo, 15h e 19h. R$ 37,50 a R$ 140. 120 min. Livre. Até 20/10/2019.

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Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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