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Autora de Gaveta D'Água, Nina Nóbile escreve para recuperar voz arrancada

Miguel Arcanjo Prado

19/09/2019 14h09

A dramaturga Nina Nóbile – Foto: Laysa Alencar/Divulgação Satyros – @miguel.arcanjo UOL

A dramaturga Nina Nóbile diz que escrever é recuperar uma voz que um dia lhe foi arrancada. Ela faz isso em Gaveta D'Água, peça com Silvio Eduardo dirigida por Gustavo Ferreira que chega às últimas sessões, às quintas, 21h, até o fim de setembro, no Espaço dos Satyros, na praça Roosevelt, 214, no centro paulistano. Nina, que também é atriz, conversou com Miguel Arcanjo nesta Entrevista de Quinta sobre este momento na carreira. Leia com toda a calma do mundo.

Veja também: Solo com Silvio Eduardo questiona crime homofóbico

Miguel Arcanjo Prado — Gaveta D'Água é sua primeira peça encenada? Como se sente?
Nina Nóbile — É a primeira vez que montam um texto 100% meu… Me sinto extremamente feliz e grata. Escrevo muito, mas tudo vai pra gaveta. Inclusive os meninos [Gustavo Ferreira, o diretor, Silvio Eduardo, o ator, e Diego Ribeiro, direção de arte/iluminação] brincam comigo falando que deveríamos mandar um convite especial para um cara que me disse: Como você se sente sabendo que nunca terá um texto seu montado? A gratidão é muito grande, não só pelo Ivam [Cabral] e o Rodolfo [García Vázquez] que me inspiram como dramaturga, mas por toda a equipe. O carinho que eles tiveram com o texto, comigo… Foi um processo muito feliz, diferente de experiências que tive no passado como "dramaturga".

Nina Nóbile com o ator Silvio Eduardo nos bastidores de Gaveta D'Água – Foto: Laysa Alencar/Divulgação Satyros – @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — Você tem uma relação próxima com o Gustavo Ferreira, que está dirigindo.
Nina Nóbile — Sim. Confio muito no Gustavo, não só por ele ser um ótimo diretor, mas também por ser um irmão pra mim e um dos meus melhores amigos, uma pessoa que vê e aceita a minha loucura.

Miguel Arcanjo Prado — E o Silvio Eduardo, que está atuando no monólogo?
Nina Nóbile — O Silvio é outro amor, que desde o início se interessou pelo texto, vinha conversar comigo (sempre andava com o texto no bolso), e lutou para esse projeto acontecer. Um dia fui me encontrar com eles após um ensaio deles, e eles iriam fazer observações sobre o texto (o que tocou eles, o que eles sentiam e enxergavam), e me contaram que passaram o ensaio inteiro fazendo trabalho de mesa, estudando as entrelinhas, simbologias. E viram tudo, inclusive coisas que eu tinha certeza que ninguém notaria, ou melhor ainda, coisas que não tinha percebido, que é quando a obra deixa de ser sua e se transforma. Nesse mesmo dia o Diego escreveu uma frase incrível sobre o texto, e é claro que eu precisava acrescentar isso na obra. E coloquei no final, com destaque.

Miguel Arcanjo Prado — Os Satyros está fazendo 30 anos. Você considera o grupo sua família?
Nina Nóbile — É muito amor nessa família Satyros! O Ivam [Cabral] diz que fui eu quem começou a falar "família Satyros", mas, para mim, que cheguei aqui um pouco antes de fazer 18, e fui acolhida pelos dois… e ganhei amigos, irmãos mesmo. Foi onde conheci meu marido [o ator Marcelo Thomaz], enfim, não tem como ver de outra forma. Tenho muita sorte de fazer parte dessa família.

A dramaturga Nina Nóbile – Foto: Laysa Alencar/Divulgação Satyros – @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — Como se inspirou para escrever essa história?
Nina Nóbile — Eu tive a minha voz arrancada desde muito cedo. E os poucos momentos de respiro que eu tinha era quando escrevia, jogava tudo no papel. Então, o que me move é relatar situações em que sua voz é arrancada, e o berro que você pode e merece dar. Escrevi sobre um personagem homossexual que tenta sobreviver a um ataque homofóbico e durante o processo se transforma em uma sereia. Penso sobre o direito de falar. Sua voz foi arrancada e você precisa recuperá-la. É o seu direito!

Miguel Arcanjo Prado — Como foi o processo de escrita?
Nina Nóbile — O que pega mesmo é a estrutura do texto. Passo muito tempo pensando na estrutura, fico dias quebrando a cabeça, tentando descobrir que estrutura aquela situação pede, exige. Esse texto foi escrito em momentos diferentes da minha vida. Eu tive essa ideia há muitos anos quando li uma reportagem de um rapaz que morreu afogado durante um trote, depois evoluí o texto para usar alguns fragmentos dele no "Vias a 180 km/h", e finalmente aceitei que ele precisava de um carinho maior, um momento seu, aumentei e reestruturei. Usei a estrutura de looping ligado ao que acontece durante um afogamento, contava o número de palavras por linha para trazer esse efeito de afogamento, amo montar esses quebra-cabeças de estrutura.

Gaveta D'Água
Espaço dos Satyros (praça Roosevelt, 214, Consolação, SP; tel. 11 3258-6345). R$ 15 e R$ 30. 60 min. 14 anos. Até 26/9/2019

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Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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