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Crítica: Em Vocifera, Teatro do Kaos expõe dor da cultura sob ataque

Miguel Arcanjo Prado

19/10/2019 14h25

Os atores Lourimar Vieira, Levi Tavares e Fabiano de Melo na peça Vocifera: metáfora do Teatro do Kaos para situação atual da cultura no Brasil – Foto: Divulgação – Coluna @miguel.arcanjo UOL

Com 22 anos de atuação, o Teatro do Kaos de Cubatão é um dos mais importantes e atuantes grupos cênicos e fundamental agente de formação cultural na Baixada Santista.

Sob liderança do aguerrido e inquieto Lourimar Vieira, sua obra mais recente, a peça "Vocifera", é uma excelente metáfora da atual situação da cultura e dos artistas brasileiros, atacados constantemente pelo poder público instaurado nas últimas eleições.

Na obra submersa na cartilha do pós-dramático pelos diretores Marcos Felipe e Lucas Beda, o próprio Lourimar Vieira surge em cena acompanhado dos atores Fabiano Di Melo e Levi Tavares.

Os atores Lourimar Vieira e Levi Tavares em cena de Vocifera, do Teatro do Kaos – Foto: Luiz Guilherme Santos/Divulgação – Coluna @miguel.arcanjo UOL

Intenso no palco, o trio de atores dá vida à concreta dramaturgia criada por Victor Nóvoa com leve inspiração em "O Inimigo do Povo", de Ibsen. Esta gira em torno das intermináveis obras do Teatro Municipal de Cubatão e da frustração dos artistas com manobras políticas que não permitem que se concluam; por outro lado, a obra ainda acaba por revelar as fragilidades — e delírios — da própria classe artística.

Os constantes ataques baixos por parte de gente com poder aos profissionais da arte são encarnados de forma sórdida pela atuação bem construída de Fabiano Di Melo.

O ator Fabiano Di Melo em cena de Vocifera, do Teatro do Kaos – Foto: Luiz Guilherme Santos/Divulgação – Coluna @miguel.arcanjo UOL

O personagem de Lourimar Vieira, que condensa a figura do agente cultural posto em xeque, oferece-se em sacrifício na peça, reforçando o ato heroico e hercúleo que é fazer teatro no Brasil contemporâneo.

Apesar da crueza discursiva do texto, a encenação consegue criar belas imagens, como quando Levi Tavares, na pele de um jovem que busca a leveza da arte em meio ao peso da hipocrisia social vigente, dança vestido de Elvis Presley.

A cena traz um frescor de poesia cênica diante de tanta dureza ao redor e nos lembra que o teatro, mesmo ao tocar temas dolorosos, não precisa abrir mão de sua beleza.

Vocifera
Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Avaliação: Muito Bom ✪✪✪✪
16º Festac – Festival de Teatro de Cubatão – Sábado, 19/10/2019, às 20h no CEU das Artes (r. Januário Cândido Pontes, s/nº, Jd. N. República), grátis, 16 anos. Única apresentação.

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Artistas sob constantes ataques: Lourimar Vieira em cena de Vocifera, do Teatro do Kaos – Foto: Luiz Guilherme Santos/Divulgação – Coluna @miguel.arcanjo UOL


Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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