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Crítica: Manual para Dias Chuvosos disseca frustrações em ritmo caótico

Miguel Arcanjo Prado

25/10/2019 09h00

As atrizes Larissa Ferrara e Marjorie Gerardi na peça Manual para Dias Chuvosos: com vingança em curso, mulheres têm o discurso, a ação e o destaque nesta peça perturbadora de Dan Rosseto sobre as relações homem/mulher – Foto: Aline Baracho @baracho_fotografia Divulgação – Coluna @miguel.arcanjo UOL

Um inesperado sexo lésbico dentro de um Chevete 88 é apenas uma das muitas imagens repletas de impacto propostas pela dramaturgia ferina de Dan Rosseto na sua peça "Manual para Dias Chuvosos".

A montagem sob direção do autor e produção de Fabio Câmara, dupla incansável do teatro paulistano contemporâneo, traz os atores Marjorie Gerardi, Larissa Ferrari e Michel Waisman na pele de um complicado trio confinado em um sufocante apartamento na metrópole caótica.

A situação-limite acaba por provocar revelações e traz à tona desejos inconfessáveis dos personagens, incluindo aí instintos que aliam vingança e assassinato.

No elenco, as mulheres têm não só o poder da fala como da ação e acabam se sobressaindo, com destaque para Marjorie Gerardi, que imprime interessantes nuances em meio aos elevados decibéis ao redor.

A atmosfera sufocante é reforçada pela luz-penumbra de Cesar Pivetti que dialoga intensamente com a cenografia simples, mas sofisticada, proposta pelo diretor e produtor.

Criando a imagem de princesas devastadas pelo furacão do poder da testosterona, os figurinos de Carla Alves dão um tom maquiavélico-cartoon à encenação. A montagem tem ainda como mérito não ser maniqueísta em seu discurso sobre a conturbada relação homem/mulher.

Se o macho alfa costuma ser apontado como o perverso, o rebate a esta suposta hegemonia pode ser ainda mais impiedoso.

É o que parece pontuar mais este texto repleto de perturbações de Dan Rosseto, que nesta obra acaba por desconcertar o politicamente correto das pautas identitárias que acreditam piamente em uma dualidade bem/mal ou mocinho/bandido, em nossa cultura do folhetim.

A vida, como inteligentemente nos mostra "Manual para Dias Chuvosos", é bem mais complexa do que isso.

"Manual para Dias Chuvosos"
Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Avaliação: Muito Bom ✪✪✪✪
Giostri Livraria Teatro – R. Rui Barbosa, 201, Bela Vista, SP, tel. 11 2309-4102. Última apresentação nesta sexta, 25/10, às 21h. R$ 30 e R$ 60. 80 min. 14 anos. 

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Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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