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Crítica: Frescor e musicalidade são a força do musical Novos Baianos

Miguel Arcanjo Prado

09/11/2019 14h50

Cena do musical Novos Baianos: frescor e musicalidade do elenco são a força motriz do espetáculo em cartaz no Sesc Vila Mariana até 15 de dezembro – Foto: Edson Lopes Jr. @edson_lopes_jr – Coluna @miguel.arcanjo UOL

"Novos Baianos"
Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Avaliação: Muito Bom ✪✪✪✪

Durante a melhor década que já existiu para se ser jovem — os anos 1970 — os Novos Baianos foram um exercício diário de utopia e rebeldia contra o sistema careta e repressor que resultou no melhor da nossa música.

Pois o grupo criador do histórico disco "Acabou Chorare", de 1972, é celebrado em clima de desbunde no musical Novos Baianos, produção da Dueto em cartaz no Teatro Antunes Filho do Sesc Vila Mariana em São Paulo até 15 de dezembro.

É justamente o frescor do elenco vigoroso a maior força deste espetáculo e o que faz dele imperdível.

Por isso, este crítico já nomeia um por um dos artistas que dão tudo de si (e mais um pouco) em cima do palco: Barbara Ferr, Beiço, Clara Buarque, Felipe El, Filipe Pascual, Gustavo Pereira, João Moreira, João Vitor Nascimento, Julia Mestre, Mariana Jascalevich, Miguel Freitas e Ravel Andrade.

Elenco do musical Novos Baianos: talento e frescor juvenil – Foto: Edson Lopes Jr. @edson_lopes_jr – Coluna @miguel.arcanjo UOL

Em conjunto, o elenco supera a dramaturgia de Lúcio Mauro Filho, imprimindo musicalidade e uma sedução quase que inocente, o que faz com que os artistas se aproximem da alma genuína dos Novos Baianos. Fora o talento musical que impressiona, fazendo a boa música brotar a cada instante e tornando até mesmo o intervalo desnecessário, tamanho o envolvimento do público.

E aí é preciso destacar o trabalho da cuidadosa direção musical de Pedro Baby e Davi Moraes, conhecedores de berço da música homenageada, em arranjos vibrantes e que pegam o público pelo coração.

A cena de "Acabou Chorare" homenageia o mentor dos Novos Baianos, João Gilberto, da melhor forma possível: impondo sua paz em contraponto a tanta agitação juvenil. Sofisticação para poucos entendedores.

Cena do musical Novos Baianos: festa no palco para celebrar grande grupo da música brasileira – Foto: Edson Lopes Jr. @edson_lopes_jr – Coluna @miguel.arcanjo UOL

O diretor Otavio Muller faz o que pode para controlar tamanha juventude, mas, assim como os originais, os novíssimos Novos Baianos parecem ser incontroláveis – a explosão energética na estreia foi tanta que uma das atrizes teve o dente quebrado ao trombar com outro ator em cena (mais Novos Baianos, impossível).

Mas isso há de ser superado e, ao longo da temporada, os jovens artistas devem ganhar mais percepção do espaço e do outro, algo fundamental no mundo das artes cênicas.

A direção faz apostas acertadas, como ao ter como aliada a exuberante e tropicalista direção de arte do coletivo Opavivará!, com colaboração de Paula Dager na cenografia e de Paula Stroher, no (maravilhoso) figurino. Ou ao escolher fazer uma associação direta da repressão e censura durante a ditadura militar do passado ao poder instaurado no Brasil de hoje.

Outro acerto é fazer o elenco convidar o público ao palco em uma das cenas, quebrando com a quarta parede e criando um adorável Carnaval, ou quando surpreende o público nas cadeiras com a força azul do mar de Arembepe, na Bahia, em uma cena cheia de força poética da brisa diante do Atlântico.

Mar azul de Arembepe inunda de poesia o musical Novos Baianos – Foto: Edson Lopes Jr. @edson_lopes_jr – Coluna @miguel.arcanjo UOL

No campo da atuação, mesmo em conjunto coeso, quem mais se sobressai é Ravel Andrade, um verdadeiro furacão cênico, além de Barbara Ferr, como uma adorável e brejeira Baby Consuelo, e Mariana Jascalevich, com uma peraltice cênica que conquista até a mais sisuda pessoa.

Para que o espetáculo fique ainda mais potente, é interessante que a direção busque aparar algumas arestas necessárias e que consiga resolver o confuso final, que merece algo melhor do que este crítico viu na noite de estreia.

Mas, pensando bem, até mesmo a confusão e o "sujo" cenicamente podem ser justificados quando o homenageado é Novos Baianos, que transformava qualquer coisa em potente estética transgressora. E isso o elenco deste musical também sabe fazer, e muito bem feito.

"Novos Baianos"
Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Avaliação: Muito Bom ✪✪✪✪

Teatro Antunes Filho do Sesc Vila Mariana (r. Pelotas, 141, Vila Mariana, tel. 11 5080-300, São Paulo, metrô Ana Rosa). De 9/11 a 15/12/2019. Quinta a sábado, às 21h. Domingo, às 18h. R$ 15 a R$ 50. 120 min. 14 anos. 

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Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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