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Herói negro esquecido, João Cândido 'Mestre-Sala dos Mares' vira espetáculo

Miguel Arcanjo Prado

10/11/2019 12h12

Cena da peça "Turmalina 18-50" sobre o herói negro marinheiro João Cândido – Foto: Stephany Lopez/Divulgação – Coluna @miguel.arcanjo UOL

Por Michele Marreira
Enviada especial a Encruzilhada do Sul (RS)*

João Cândido (1880-1969), herói negro que o Brasil esqueceu, ganha destaque por meio do teatro em uma noite de forte emoção em sua terra natal. Sua memória é reavivada no espetáculo "Turmalina 18-50", que celebra o ícone da Revolta da Chibata, quando marinheiros sob sua liderança lutaram contra a herança escravocrata de castigos corporais em 1910.

A obra da Cia. Cerne, que existe desde 2013 em São João do Meriti, na Baixada Fluminense, estreou sob fortes aplausos na noite deste sábado (9) em apresentação gratuita no Ginásio Rodolfo Taborda, em Encruzilhada do Sul, cidade onde nasceu de Cândido, no Rio Grande do Sul. Também se apresentaram na mesma noite os grupos artísticos das ONGs locais Divina Providência e Grupo Afro Orgulho da Raça.

O Almirante Negro homenageado na música "O Mestre-Sala dos Mares", de João Bosco e Aldir Blanc, eternizada por Elis Regina, ganha os palcos com uma trajetória que marcou a luta pela igualdade racial no Brasil. A peça será apresentada no Rio a partir de 20 de novembro [veja datas e locais ao fim da reportagem].

O espetáculo tem dramaturgia e direção de Vinicius Baião e conta no elenco com Átila Bezerra, Gabriela Estolano, Graciana Valladares, Higor Nery, Leandro Fazolla e Madson Vilela.

A obra ainda conta com supervisão de Rodrigo França, pesquisa de Luiz Antonio Simas, cenografia de Cachalotte Matos, figurino de Carol Barros, maquiagem de Higor Nery, preparação corporal de Orlando Caldeira, trilha, direção musical e preparo vocal de Kadú Monteiro, luz de Ana Luzia de Simoni e técnica de Victor Tavares.

"Tínhamos vontade de montar um espetáculo que de alguma forma falasse da nossa terra, São João do Meriti, onde João Cândido viveu suas últimas décadas. Pouco se ouve sobre esse herói nacional. Após realizarmos uma pesquisa, descobrimos que em 2019 é o ano em que se completam 50 anos de sua morte", diz o diretor e dramaturgo Vinicius Baião.

Cena da peça "Turmalina 18-50" sobre o herói negro marinheiro João Cândido – Foto: Stephany Lopez/Divulgação – Coluna @miguel.arcanjo UOL

O espetáculo teve apoio do projeto Rumos do Itaú Cultural. Maya Koketsu, produtora executiva responsável pelo Rumos, reitera a importância de fomentar um espetáculo com tamanha envergadura.

"Nossa forma de encarar os projetos é diferente; não somos patrocinadores e sim, apoiadores. Nossa visão é embarcar nas ideias dando todo suporte em todas as etapas. A proposta não é dar um valor em dinheiro e cobrar somente um trabalho final. Costumo dizer que quando abraçamos um projeto é como se fosse um casamento durante o processo: estamos juntos nas alegrias e também nas dificuldades", fala a executiva do Itaú Cultural.

Leandro Fazolla, ator e programador visual da peça, lembra a ausência de Cândido na história oficial do país. "Houve um processo muito pesado de apagamento e perseguição de João Cândido. Faz parte do nosso compromisso com nossa cidade e essa figura histórica, tentar colaborar com o processo de resgate", fala.

O texto do espetáculo foi escrito ao longo do processo, que contou com mesas de debates e bate-papo que abarcaram temas como direitos humanos, apagamento histórico e protagonismo negro nas artes cênicas, entre outros. Todo esse material recolhido pela Cia. Cerne será doado ao Museu João Cândido, em São João do Meriti.

Madson Vilela, ator que interpreta João Cândido ao lado de Átila Bezerra na peça, comemorou a estreia especial. "É muito honroso estar nos apresentando aqui na cidade dele. Nossos antepassados estão com a gente em cena", afirma. E fez questão de dedicar o espetáculo "às crianças pretas da ONG Divina Providência de Encruzilhada do Sul", antes de complementar: "Eles podem ser heróis assim como João Cândido. Precisam saber que ele era um homem preto. Também comecei num projeto social como eles".

Cia Cerne posa com o público em Encruzilhada do Sul na estreia de "Turmalina 18-50" sobre o herói negro marinheiro João Cândido – Foto: Stephany Lopez/Divulgação – Coluna @miguel.arcanjo UOL

A atriz Graciana Valladares lembra que questionar o mundo ao redor foi fundamental na sua construção artística. Para ela, a emoção aflora ao vivenciar algumas cenas do espetáculo. "Fico imaginando tudo isso na época", conta.

"Quando subo no palco, eu não estou sozinha. Existem outros que estiveram antes de mim, para que hoje eu possa falar. É necessário fazermos essa discussão, que as pessoas reflitam. As chibatadas acontecem diariamente através dos olhares que recebemos nas ruas, quando entramos num banco e em tantas outras situações. A mensagem do espetáculo não é só um documentário sobre João Cândido, vai além", conclui.

*A jornalista Michele Marreira viajou a convite do Rumos do Itaú Cultural.

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Veja as datas e locais das próximas apresentações da peça "Turmalina 18-50" no Rio de Janeiro:

São João de Meriti (RJ)

quarta 20 de novembro de 2019 | 19h
Sesc São João de Meriti

Avenida Automóvel Clube, 66, Centro
Ingresso: R$ 10 (inteira)

quinta 21 de novembro | 16h
Praça da Matriz, Centro
Entrada gratuita

Rio de Janeiro (RJ)

sexta 22 de novembro | 18h30
Paço Imperial

Praça Quinze de Novembro, 48, Centro
Entrada gratuita

Duque de Caxias (RJ)

sábado 7 e domingo 8 de dezembro | 19h30
Gomeia Galpão Criativo

Rua Dr. Lauro Neiva, 32, Jardim Vinte e Cinco de Agosto
Ingresso: R$ 30 (inteira)

Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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