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Opinião: Por que quando o crime é racismo a polícia não respeita a Lei?

Miguel Arcanjo Prado

27/11/2019 08h22

Os atores André Luh, Israel Silva e Mariana França, durante performance no Festival Satyrianas: eles foram xingados e apanharam de um jovem branco; segundo testemunhas, o agente da Polícia Militar que foi chamado não prendeu o criminoso racista em flagrante e ainda tentou culpar as vítimas negras – Foto: Caca Pereira/Coletivo Fotomix – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Dois casos recentes de racismo em pleno Mês da Consciência Negra chocaram a classe artística e a sociedade paulistana não só pelo horror que representam como também pelo pouco caso feito por agentes policiais diante de um crime previsto na Lei Afonso Arinos.

O primeiro deles aconteceu em plena praça Roosevelt, centro de São Paulo, durante o último Festival Satyrianas, realizado pela Cia. de Teatro Os Satyros no feriadão da Proclamação da República. Foi a "pedra no meio do caminho" como definiram os fundadores do grupo teatral com 30 anos de trajetória, Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez.

Integrantes do grupo, os atores André Luh, Israel Silva e Mariana França, os três negros, foram agredidos enquanto faziam uma performance na praça que tratava justamente da opressão que os corpos negros sofrem na sociedade brasileira.

Segundo relato do grupo: "eles foram covardemente atacados, xingados, humilhados e sofreram agressões racistas por um skatista branco que estava no local".

Acionado, o agente da Polícia Militar que compareceu ao local fez pouco caso da situação e, em vez de prender em flagrante o criminoso racista, pediu que o mesmo fosse embora impunemente.

E ainda proferiu a seguinte frase aos artistas segundo relato dos que presenciaram a situação: "Se vocês estivesse na igreja, não estariam apanhando". E ameaçou prender por desacato aqueles que, indignados, reclamavam de sua inexplicável atitude.

A frase do sargento é tão absurda quanto reveladora do despreparo da Polícia Militar para lidar com o racismo no Brasil, não só descumprindo o que manda a Lei, como ainda fazendo julgamentos de cunho pessoal e religioso justamente quando são agentes representantes do Estado, que no Brasil é laico na Constituição, e que são pagos para zelar justamente pelo cumprimento desta.

Não bastasse essa situação que envergonha a nossa sociedade, na última sexta (22), 48 horas após o Dia da Consciência Negra, outro horror: um homem negro foi agredido em frente ao bar e restaurante Frango com Tudo Dentro, da Rede Biroska, de Lilian Gonçalves, no bairro de Santa Cecília, frequentado pela classe artística, enquanto passava pelo local e um cliente, branco, resolveu agarrá-lo pelo braço e ordenar, como um sinhozinho, que o atendesse, chamando-o de "negão".

O rapaz negro, que não era funcionário do local, reagiu com indignação ao racismo, como qualquer pessoa vítima de um crime. Contudo, acabou apanhando de forma covarde do homem branco, que o arrastou na calçada e o espancou, sem que seguranças do bar o defendessem, segundo relato da reportagem do Universa, que presenciou a situação, assim como outras pessoas presentes no local.

E o mais impressionante: após demorar meia hora para chegar, a Polícia Militar tratou o jovem negro mais como culpado do que como vítima de no mínimo dois crimes: racismo e agressão, também conforme relato dos que viram a cena. Também chama a atenção a falta de reação das pessoas diante da cena: não só funcionários como frequentadores do restaurante, em sua maioria pessoas da classe artística, que ganham desconto no local.

Estes dois casos nos leva a fazer algumas simples perguntas: até quando o racismo não será visto como crime pela polícia e devidamente punido por esta como manda a Lei? Ou policiais não respeitam a Lei quando o crime é racismo? Ou pessoas negras não são dignas de serem defendidas por agentes públicos de segurança, mesmo pagando impostos como qualquer outro cidadão de qualquer etnia e nossa Constituição dizendo que todos são iguais perante a Lei? A população negra vale menos que a branca na cabeça da Polícia Militar?

Pelos dois casos relatados, as respostas a estas questões parecem claras demais.

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Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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