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30 Anos Blues no Festival do Rio: "Artistas não são inimigos do Brasil"

Miguel Arcanjo Prado

13/12/2019 17h55

Andradina Azevedo e Dida Andrade: dupla de cineastas paulistas está com seu segundo longa, 30 Anos Blues, no Festival do Rio, após ganharem o Kikito Especial em Gramado – Fotos: Davi Campana – Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Após saírem do último Festival de Cinema de Gramado com o Kikito Especial do Júri para seu segundo longa, 30 Anos Blues, a dupla de cineastas paulistanos Andradina Azevedo e Dida Andrade exibiu seu filme no Festival do Rio, nesta quinta (12), com calorosa acolhida do público. O longa é um amadurecimento da dupla que impressionou no filme de estreia, A Bruta Flor do Querer, vencedor dos Kikitos de melhor direção e melhor fotografia em Gramado em 2013. Se no primeiro trabalho eles vasculhavam os anseios de jovens urbanos de classe média, agora apresentam a famosa crise dos 30, aliada a uma síndrome de Peter Pan que invade toda uma geração em um país que desmorona. O longa é produzido pela Yourmama, com coprodução da Na Lata Filmes e distribuição da Pagu Pictures. Depois da sessão carioca, eles conversaram com exclusividade com o Blog do Miguel Arcanjo sobre este momento especial, a vontade de levar o filme ao mundo e ainda comentaram a complicada situação para o audiovisual nacional nos dias de hoje. "Em breve, o povo perceberá que o verdadeiro inimigo do Brasil não é a classe artística", afirmaram. Leia com toda a calma do mundo. 

Miguel Arcanjo Prado – Como é chegar com 30 Anos Blues no Festival do Rio?
Andradina Azevedo –  Uma vitória estar em um festival com essa importância levando em consideração as condições que tínhamos para produzir o filme. As pessoas estiveram muito receptivas na nossa sessão.
Dida Andrade – Felizmente sempre fomos muito bem vindos no Festival de Gramado, mas honestamente não imaginávamos que o Festival do Rio iria aceitar o nosso filme, mesmo sem ser estreia. Depois de 12 anos de carreira, lutando diariamente, bom ver que nosso cinema tem um poder de comunicação muito forte com o público. Além de querer conquistar o carinho do público carioca, acredito que estar aqui no Festival do Rio pode nos alavancar o filme para uma carreira internacional.

Miguel Arcanjo Prado — Vocês têm planos internacionais pra este filme? Já tem alguma previsão de estreia Internacional?
Dida Andrade – Quem está conosco neste projeto e pensando sobre a internacionalização do filme é a produtora Mayra Faour Auad, que acabou de vencer um Emmy. Então, estamos tranquilos. Agora, é focar no próximo filme.

Os cineastas Andradina Azevedo e Dida Andrade carregam a atriz Claudia Alencar no 47º Festival de Cinema de Gramado, no qual ganharam o Kikito Especial do Júri para 30 Anos Blues – Foto: Edison Vara/Agência Pressphoto – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — Vocês ganharam Gramado neste ano com este filme. O que ele tem de Especial na visão de vocês, já que foi o Kikito que ganharam?
Andradina Azevedo – Acho que esse filme fala de coisas que estão muito próximas da vida das pessoas dessa geração. E acho que por isso ele também é visto como afrontoso e muitas vezes incomoda. E isso é feito com uma proximidade muito forte, não há aquele distanciamento seguro do assunto que estão na maioria dos filmes. Outra coisa especial é a qualidade do elenco. Conseguimos revelar muitos atores que tenho certeza que depois desse processo estão preparados para atuar em qualquer grande filme.
Dida Andrade – Vencemos o Prêmio especial do Júri no Festival de Gramado. Com o A Bruta Flor do Querer, ninguém esperava o que iam ver, logo era mais fácil o filme ser premiado (vencemos melhor direção e fotografia naquela edição de 2013). O difícil do 30 Anos Blues era por não termos o mesmo fator surpresa – de dois diretores que ninguém espera nada. Acredito que o filme conseguiu – no meio de tantos filmes grandes – se sagrar vitorioso por se tratar de uma obra honesta e visualmente poderosa. Tem o DNA do nosso primeiro filme com uma maturidade mais aprofundada nas relações humanas.

Andradina Azevedo e Dida Andrade posam com a atriz Claudia Alencar e as produtoras Gabrielle Auad e Mayra Auad – Foto: Davi Campana – Divulgação Festival do Rio – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — O primeiro filme de vocês era um retrato poético da geração à qual vocês pertencem. De lá pra cá a juventude mudou muito é o Brasil também. 30 Anos Blues fala com a juventude e o Brasil de hoje? Como?
Andradina Azevedo – O Bruta Flor eram os 20 anos blues, esse são os 30 Anos Blues. O filme retrata as crises, anseios e confusões dessa geração dos 30 de hoje. Crises que eu não imaginava que teríamos quando eu estava com 20 e poucos. Pois todos nos imaginávamos muito estáveis aos 30. Mas hoje aos 30 está todo mundo meio louco.
Dida Andrade – Olha, Miguel, 30 Anos Blues tem um diálogo muito íntimo com o público de 27 anos aos 40. O filme foi pensado e filmado durante a pior crise econômica da nossa Republica. Então, tem um gosto especial para as pessoas que viveram este período. No futuro, ficará as questões mais arquetípicas como as questões de âmbito amoroso e insatisfações pessoais/profissionais.

Andradina Azevedo e Dida Andrade nos bastidores das filmagens de 30 Anos Blues com os atores Juan Manuel Tellategui, Claudia Alencar e Marco Antônio Braz – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — O cinema brasileiro anda sob forte ataque. O que a geração jovem de cineastas da qual vocês fazem parte fará para que ele não seja aniquilado?
Andradina Azevedo – Resistir, produzir e dialogar. Produzir mais e da maneira que for possível. Crises horríveis podem parir belas obras de arte e estimular inovações e evoluções na linguagem. A História já provou isso. Mostrou que limitações como essas que temos (financeiras, políticas, repressoras..) estimulará novas formas de comunicação. Também acho que, como artistas, não devemos nos fechar diante de quem pensa diferente. Não podemos devolver agressões ou preconceito da mesma forma. Temos que dialogar e tentar de maneira pacífica expor a importância da cultura e da arte. Temos que ter equilíbrio e não ódio para convencer as pessoas de que a arte importa. Eu vejo em nossa classe e nos eventos culturais também uma repulsa a quem tem outras posições políticas. Isso só aumento o ódio e distância entre os polos; e não convence que a arte é necessária.
Dida Andrade – Acho que todo este movimento contra a cultura servirá para entendermos novamente o porquê precisamos de cultura. Que é isto que nos difere como povo. O Brasil é um país novo que está aí para ser inventado. Se em tão pouco tempo conseguimos formar diversos artistas e movimentos que marcaram a cultura mundial, não tem como pensar que não somos uma potência. Principalmente porque temos 200 milhões de habitantes. Tudo é um processo histórico e vamos conseguir formar uma indústria do entretenimento poderosa. Acredito em Caetano, Vianinha, Zé Celso, Asdrúbal, Glauber Rocha, João Gilberto, Fernando Meirelles… não em político canalha que é "contra a arvore e a favor do serrote". Em breve, o povo perceberá que o verdadeiro inimigo do Brasil não é a classe artística.

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Ficha técnica 30 ANOS BLUES
Produtora: YOURMAMA
Coprodutora: NA LATA FILMES
Distribuidora: PAGU PICTURES
Produção Executiva: Mayra Faour Auad, Andradina Azevedo e Dida Andrade
Direção: Andradina Azevedo e Dida Andrade
Roteirista: Andradina Azevedo, Dida Andrade e João Segall
Direção de Fotografia: Gallo Rivas
Direção de Arte: Karla Salvoni e Marília Franco
Trilha Musical: Flavio Iannuzzi
Trilha Sonora Original: Flavio Iannuzzi
Montagem: Andradina Azevedo, Dida Andrade e Pedro Andreta
Desenho de Som: AudioInk
Elenco: Julia Ianina, Carol Melgaço, Andradina Azevedo, Dida Andrade, Claudia Alencar, Adriano Toloza, Bruna Yamatogue, Fábio Penna, Pedro Lopes, Danielle Rosa, Juan Manuel Tellategui, Larissa Korolkovas, Ruy Prado, Marco Watanabe, Ligia Gabarra, Diana Motta, Ricardo Dantas, Patrícia Borin, Mariana Hein, Fabricio Gallinucci, André Lu, Gustavo Alves Pereira, Marco Antônio Braz, Julio Vargas, Erika Suzuki, Helena de Moraes Pinto (Baby), Marcio Santos, Daiane Brito, Hanna Perez, Julia Azevedo, Ivan Arcushin, Bruno Perazio, Bruna Pinheiro, Dom Capelari, Lara Martins, Beatriz Ferreira, Alex de Jesus, Camila Araújo, Beto Marques, Beto Chuquer, Carol Ueno, Tiago Froes, Rafael Carvalho, Matheus Saboya, Jade Buick, Cris Tex, Priscila Lima, Caco Ferreira, Marina Azevedo, Inês Andrade, Carlos Rivas, Irene Andrade, Meera Menegon e Karina Catalán Sánchez

Ao lado do elenco, o cineasta Dida Andrade comemora o Prêmio Especial do Júri no 47º Festival de Cinema de Gramado para 30 Anos Blues – Foto: Marcello Sá Barreto/Brazil News – Blog do @miguel.arcanjo UOL

"30 Anos Blues" no Festival do Rio 2019
12/12 (quinta-feira) 20h15 – Estação NET Gávea 1 e 2
13/12 (sexta-feira) 17h – Estação NET Rio 3
14/12 (sábado) 20h – Instituto Moreira Salles

Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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