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Talytha Pugliesi diz ter sido vítima de assédio de um colega do teatro

Miguel Arcanjo Prado

24/01/2020 18h25

Talytha Pugliesi (de vermelho) com os colegas de elenco e diretor e autor da peça Toda a Saudade do Mundo, Régis Trovão Rodrigues (de colete preto e camisa branca) – Foto: AgNews

A atriz e top model Talytha Pugliesi usou sua conta no Instagram para denunciar assédio que teria sofrido por parte de "um homem por qual tinha confiança e carinho". Sem citá-lo nominalmente, Talytha revelou que o homem trabalhava com ela havia quatro meses, quando a teria assediado no dia 28 de novembro de 2019, em um evento fora do teatro. Assustada com o ocorrido, a atriz, que é casada, chegou a compartilhar a situação com familiares e com o restante do elenco da peça. Na época do relato, Talytha estava em cartaz em São Paulo no Teatro Cemitério de Automóveis, na rua Frei Caneca, com o espetáculo "Toda a Saudade do Mundo", escrito e dirigido por Régis Trovão Rodrigues, que não comentou o caso — caso queira se manifestar, este espaço está aberto. Além de atriz, Talytha Pugliesi é uma das modelos brasileiras que mais tiveram sucesso no mercado internacional da moda, tendo desfilado e feito campanhas para as mais importantes marcas do mundo.

Leia o relato da atriz e modelo Talytha Pugliesi:

"No dia 28 de novembro eu sofri assédio de um homem por qual eu tinha confiança e carinho. Fazia uns 4 meses que vinhamos trabalhando juntos e nunca havia acontecido nada do tipo vindo dele.

Nós estávamos num evento com outros amigos. Nem sei como ou porquê fui parar naquele lugar. Logo que cheguei quis ir embora mas acabei ficando porque tinha comida e eu comi e bebi bastante.

Os amigos foram indo embora e ficamos só nós dois de boa, conversando de projetos futuros e brevemente sobre a vida. Até que ele pegou a minha cabeça, como quem põe a mão atrás da cabeça da pessoa e traz em sua direção pra beijar.

Eu empurrei e falei algo do tipo(não me lembro exatamente dos diálogos depois disso): tá doido ou não faz isso ou não viaja. Ele tentou pela segunda vez e eu não faço idéia do que falei. Só me lembro de sentir vergonha.

Ele pediu desculpas e continuamos conversando. Eu não sei dizer até agora por que eu não levantei e fui embora? Por que eu não gritei, não agredi? Até que mais uma vez, do nada, ele fez o mesmo movimento e me beijou pela terceira vez.

Todas as vezes eu o empurrei pra longe. Preciso dizer que eu tava bebada e chapada. Quando me despedi, ele ainda me disse uma frase que me enoja sempre que penso nela. Ou seja, ele tentou uma quarta vez pra ver se eu ia ceder. Eu entrei no Uber e fui pra casa.

Vomitei muito no caminho até em casa e muito mais quando cheguei. Senti muito muito nojo. No dia seguinte mandei msg pra ele dizendo que aquilo era um absurdo, que ele tinha me desrespeitado e que eu nunca tinha dado nenhuma abertura para ninguém. Ele se desculpou e eu achei que ficaria tudo bem. Mas não ficou. E não está tudo bem até agora. Nunca senti tanto ódio na vida.

Eu só pensava em como eu ia contar pro meu marido? E eu precisava contar pra ele pra me sentir melhor porque ele é meu melhor amigo. Mas eu não contei. Contei pra minha terapeuta e na quarta após o episódio eu contei pra uma pessoa – um homem – do nosso grupo que eu acreditava ser a minha pessoa naquele lugar.

Uma semana depois do acontecido, eu viajei pra encontrar o Lucas, meu marido, que tava viajando a trabalho e só quando cheguei lá eu consegui contar por msgs de Whatsapp pras minhas irmãs que são as minhas pessoas nesse mundo junto com ele. Mas eu tinha muita vergonha. E como elas tinham conhecido ele numa apresentação que foram assistir, pensei não falar.

Aí foi a primeira vez que eu me percebi cogitando passar pano e fiquei indignada em como essas situações nos deixam coagidas. Mas eu contei a elas, e obviamente, me encorajaram a contar ao meu marido. Eu contei. Imaginem a vergonha e o medo! Um parêntese – eu tenho o MELHOR companheiro do mundo. As minhas irmãs me fizeram entender que era assédio e depois conversando com advogado, soube que dá cadeia.

Depois que eu finalmente consegui contar pro boy, comecei explanar. Contei pras outras pessoas do nosso núcleo e explanei no grupo de zap da peça. Após essa explanada e por causa dela, o abusador pediu desculpas pra mim e para os outros atores e todos falamos o que queríamos falar. Me senti melhor mas não o suficiente. Dois dias depois mandei outra msg no grupo falando uma última coisa que eu precisava muito falar.

Após o assédio eu ainda tive contato com ele mais 3 vezes porque tinha o compromisso do trabalho e nessas vezes eu só falei profissionalmente e nunca mais consegui nem dar a mão como cumprimento. Ele, claro, continuou vivendo como se nada fosse.

No último dia de apresentação eu cheguei como sempre e percebi que aquela pessoa que foi a primeira que eu procurei pra me abrir, tava me tratando mal e falava com o assediador com acolhimento. Não me pergunte o porquê pq não sei. A única coisa que me vem a cabeça é que alguns poderiam achar que eu estava "overreacting" e "ele já tinha sido homem e pedido desculpas na frente de todos e para todos" (eu ouvi essa frase). Porque é isso, você, vítima, pode reclamar mas não tanto assim né? Só que só quem passou por algo parecido sabe o quanto é necessário.

Esses dias me perguntei como eu atraí isso pra minha vida e a resposta que veio é: eu sou de verdade, feminista de verdade, então eu precisava falar. Por mim e por outras mulheres."

Ver essa foto no Instagram

 

No dia 28 de novembro eu sofri assédio de um homem por qual eu tinha confiança e carinho. Fazia uns 4 meses que vinhamos trabalhando juntos e nunca havia acontecido nada do tipo vindo dele.  Nós estavamos num evento com outros amigos. Nem sei como ou porquê fui parar naquele lugar. Logo que cheguei quis ir embora mas acabei ficando porque tinha comida e eu comi e bebi bastante.  Os amigos foram indo embora e ficamos só nós dois de boa, conversando de projetos futuros e brevemente sobre a vida. Até que ele pegou a minha cabeça, como quem põe a mão atrás da cabeça da pessoa e traz em sua direção pra beijar. Eu empurrei e falei algo do tipo(não me lembro exatamente dos diálogos depois disso): tá doido ou não faz isso ou não viaja. Ele tentou pela segunda vez e eu não faço idéia do que falei. Só me lembro de sentir vergonha. Ele pediu desculpas e continuamos conversando. Eu não sei dizer até agora por que eu não levantei e fui embora? Por que eu não gritei, não agredi? Até que mais uma vez, do nada, ele fez o mesmo movimento e me beijou pela terceira vez. Todas as vezes eu o empurrei pra longe. Preciso dizer que eu tava bebada e chapada. Quando me despedi, ele ainda me disse uma frase que me enoja sempre que penso nela. Ou seja, ele tentou uma quarta vez pra ver se eu ia ceder. Eu entrei no Uber e fui pra casa. Vomitei muito no caminho até em casa e muito mais quando cheguei. Senti muito muito nojo. No dia seguinte mandei msg pra ele dizendo que aquilo era um absurdo, que ele tinha me desrespeitado e que eu nunca tinha dado nenhuma abertura para ninguém. Ele se desculpou e eu achei que ficaria tudo bem. Mas não ficou. E não está tudo bem até agora. Nunca senti tanto ódio na vida. Eu só pensava em como eu ia contar pro meu marido? E eu precisava contar pra ele pra me sentir melhor porque ele é meu melhor amigo. Mas eu não contei. Contei pra minha terapeuta e na quarta após o episódio eu contei pra uma pessoa – um homem – do nosso grupo que eu acreditava ser a minha pessoa naquele lugar. Continua nos comentários:

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Talytha Pugliesi, atriz e top model – Foto: Reprodução/Instagram

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Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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