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Sem apoio de estatais federais, Mostra de Tiradentes leva 37 mil ao cinema

Miguel Arcanjo Prado

01/02/2020 12h44

Raquel Hallak, coordenadora geral da Mostra de Cinema de Tiradentes e diretora da Universo Produção, responsável pelo programa Cinema sem Fronteiras – Foto: Leo Lara/Universo Produção – Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Após nove dias com 113 filmes de 17 Estados exibidos em 53 sessões para 37 mil pessoas, chega ao fim neste sábado (1º) a 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Organizado pela Universo Produção, o tradicional festival que abre o ano cinematográfico brasileiro movimentou a cidade histórica de 7.000 habitantes, localizada na região do Campo das Vertentes, em Minas Gerais.

Com o tema Imaginação como Potência, o evento ainda contou com 39 debates, além de oficinas formativas e o Cortejo da Arte, que coloriu as ruas da cidade em festa pelos seus 302 anos de fundação.

Coordenadora geral do evento e diretora da produtora realizadora, Universo Produção, Raquel Hallak diz encerrar esta edição com "saldo positivo" e afirma ter gerado contratos com 250 empresas mineiras, contribuindo para a economia. "Geramos 2.500 empregos diretos e indiretos", comemora.

"A Mostra projeta Tiradentes em todo o Brasil, as pessoas vêm não só para ver os filmes, mas para curtir tudo que a cidade oferece. O sentimento é de missão cumprida, nos esforçamos e não foi preciso reduzir a programação", celebra, informando que "a Mostra de Cinema de Tiradentes gera cerca de R$ 10 milhões de recursos à cidade", segundo estudo realizado pela Prefeitura de Tiradentes.

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Público lota 23a Mostra de Cinema de Tiradentes durante homenagem a Camila Pitanga e Antonio Pitanga – Foto: Jackson Romanelli/Universo Produção – Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Ausência de antigos patrocinadores federais

Hallak conta que este ano o festival só foi possível graças ao apoio do Governo de Minas Gerais, por meio de estatais estaduais, como a Copasa, a Cemig e a Codemge, já que o evento viu a fuga de antigos patrocinadores federais, como a Petrobras, Furnas e o BNDES, "três estatais que nos acompanhavam há muitas edições", lamenta.

O governo Jair Bolsonaro têm tido uma conturbada relação com o setor cultural em todo o País, com ataques, censura, corte de verbas e apoios a produções e festivais artísticos. Tiradentes este ano ainda contou com apoio de empresas privadas como Itaú, CBMM, Petra e Taesa, além de Sesc, Sesi Fiemg, Oi e Instituto Universo Cultural. O evento conta com recursos pela Lei de Incentivo à Cultura Federal e a Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais.

Ela ressalta que sua equipe enxugou gastos de produção e de logística, revelando, por exemplo, que as passagens aéreas foram compradas na virada do ano, "quando o Brasil todo estava parado e encontramos melhores preços".

A empresária ainda cita a presença de Alagoas, que levou um longa e três curtas ao festival, com 35 profissionais de cinema daquele Estado. "O cinema é um instrumento poderoso para construir o futuro que a gente quer", reflete. "É preciso ainda lembrar que a economia criativa é o segundo setor que mais gera emprego e renda neste país com tanto desemprego. Precisamos ser valorizados", diz.

Sob comando de Raquel Hallak, equipe da 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes posa na rua Direita: 113 filmes exibidos de graça para 37 mil pessoas – Foto: Leo Lara/Universo Produção – Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Formação no cinema brasileiro

Raquel Hallak lembra a importância formativa do programa Cinema Sem Fronteiras da Universo Produção, que reúne os anuais Mostra de Cinema de Tiradentes em janeiro, a Mostra Tiradentes SP em março, a CineOP em Ouro Preto em junho e o CineBH em Belo Horizonte em setembro.

E adianta uma novidade: este ano vai retomar em Belo Horizonte a Casa da Mostra, um espaço para eventos e atividades formativas, visando formar profissionais qualificados para integrarem a equipe de seus festivais no futuro. "Queremos democratizar o acesso, porque temos um país onde ainda impera a disparidade social e de riquezas. Temos de fazer nossa parte como cidadãos e não ficar só esperando que o Estado resolva tudo", afirma.

Os atores homenageados Antonio e Camila Pitanga posam na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes – Foto Leo Lara/Universo Produção – Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Antonio e Camila Pitanga homenageados

Hallak ainda comemora os homenageados deste ano, o ator Antonio Pitanga e sua filha, a também atriz Camila Pitanga. "O cinema brasileiro tem muito disso, de ser feito em família". E lembra que Tiradentes ajudou a lançar luz a nomes hoje consagrados não só no cinema como na TV. "Irandir Santos, José Eduardo Belmonte e Bruno Safadi, todos passaram por Tiradentes", comemora.

Ela diz que as temáticas apresentadas em Tiradentes, onde filmes experimentais encontram seu lugar bem como produções com discursos mais politizados, sobretudo calcados nas pautas identitárias, são apenas um reflexo da produção nacional, dizendo que este ano foram mais de 1.000 filmes inscritos, um recorde. "Nunca sofremos qualquer tipo de censura de patrocinadores", afirma. "

A atriz Regina Duarte, nova secretária de Cultura de Jair Bolsonaro – Foto: Bruno Poletti @brunopoletti – Blog @miguel.arcanjo UOL

Boa sorte a Regina Duarte

Questionada pelo Blog Miguel Arcanjo sobre como enxerga a atriz Regina Duarte ter assumido o cargo de secretária de Cultura de Bolsonaro, Raquel Hallak diz: "Eu desejo boa sorte. Dentro deste contexto –ela já é a quarta neste cargo — é o que nos cabe. Tomara que ela se cerque de pessoas competentes. Ela está sendo corajosa em assumir esse desafio. A gente tem que desejar que dê certo".

Para a empresária dos maiores festivais mineiros, a sociedade civil precisa pressionar o legislativo para que as políticas públicas para o setor cultural não terminem. "As políticas públicas não são construídas sem a pressão da sociedade, é preciso pressionar nossos deputados e senadores, este ano é de eleição", lembra, antes de reforçar que "vivemos em uma democracia".

"Nós da economia criativa precisamos nos posicionar como indústria que somos, geradora de renda e de emprego neste país de milhões de desempregados", conclui.

*Enviado especial a Tiradentes (MG), o jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado viajou a convite da Mostra de Cinema de Tiradentes.

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Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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