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Rodrigo Borcardi comprovou o racismo estrutural e não aprendeu nada

Miguel Arcanjo Prado

08/02/2020 18h43

Rodrigo Bocardi cometeu racismo estrutural ao vivo, mas não tem a humildade para admitir o erro e evoluir – Foto: Reprodução/Globo – Blog @miguel.arcanjo UOL

O jornalista Rodrigo Bocardi, apresentador do Bom Dia São Paulo e do Bom Dia Brasil, comprovou ao vivo na tela da Globo o racismo estrutural brasileiro. E mais: segue comprovando e repetindo o racismo estrutural ao não ter a humildade para admitir o erro de seu pensamento (racista) revelado na TV. Falta a humildade de admitir o erro e querer mudar, evoluir.

Afinal, pelo fato de um entrevistado negro estar com a camisa de um clube de elite de São Paulo em uma entrevista ao vivo em uma estação do transporte público paulistano, Bocardi deduziu por conta própria que o rapaz seria "pegador de bolinhas" do clube. Ou seja, um serviçal.

Mas não, para surpresa de gente que pensa como Bocardi, o tal rapaz era Leonel Diaz, um atleta do polo aquático do clube. Ao contrário de uma lógica racista, ele não vai ao Pinheiros para servir os brancos que obrigam suas babás a entrar no local uniformizadas para diferenciá-las dos sócios. O rapaz vai ao clube para trabalhar como atleta profissional.

Veja o vídeo:

Bocardi, em sua terrível dedução por conta da etnia do entrevistado, repetiu o racismo estrutural e institucional enraizado na sociedade brasileira. Este parte de uma lógica perversa e fruto de nosso vergonhoso período de escravidão: a de que alguns lugares não pertencem a negros, entre eles frequentar um clube da elite paulista em outro posto que não seja o de servir.

Mas, diante da falha, feita ao vivo e assistida por milhões de telespectadores, qual seria o melhor a se fazer? Um pedido público de desculpas de Rodrigo Bocardi, admitindo o erro de forma simples: ter cometido um ato racista estrutural ao julgar a profissão da pessoa por sua etnia. Mesmo que involuntário, o racismo existiu. E pronto. Admitir que precisa aprender mais sobre o racismo estrutural brasileiro e não tentar justificar o injustificável.

Mas, não. Bocardi preferiu negar que foi racista e misturar alhos com bugalhos, como diria uma avó. Disse que tem origem pobre e que andava de transporte público tempos atrás, como se isso o absolvesse de repetir o racismo estrutural brasileiro como fez ao vivo na Globo diante dos olhos do Brasil.

Ao vivo na Globo, Rodrigo Bocardi (à esq.) achou, por conta de um pensamento racista estrutural, que o jovem atleta negro do Pinheiros fosse um "pegador de bolinha" do clube da elite paulista; e pior: ele não consegue admitir o erro e evoluir – Foto: Reprodução – Globo – Blog @miguel.arcanjo UOL

O raciocínio do jornalista, como bem definiu a colega colunista do UOL Nina Lemos, usa a lógica (racista, por sinal) "do até tenho um amigo negro". Um verdadeiro horror, sobretudo para um jornalista que ocupa um cargo tão importante na emissora mais vista do país e que deveria se questionar um pouco mais para poder evoluir.

Se Bocardi realmente acha que não foi racista, precisa ler muito sobre o assunto. Não só ler como também conversar com pessoas negras, de preferência que não sejam seus subalternos. Gente que possa lhe falar o que pensa sem medo de demissão.

Bocardi precisa tentar se colocar no lugar do outro. Quem sabe um papo sincero e tranquilo com sua colega Maria Júlia Coutinho? Ou ler algum livro da Djamila Ribeiro? Tentar entender, sem justificativas prévias ou tentativas de calar o problema dizendo que ele não existe, como funciona o racismo estrutural no Brasil, aquele que coloca o negro sempre em lugar de inferioridade em relação ao branco, seja na TV, em empresas, instituições ou na sociedade como um todo.

Olha, Rodrigo Bocardi, fazer isso seria muito mais digno para você e bem melhor para nossa sociedade.

>>> Siga @miguel.arcanjo

Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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