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Alessandra Negrini 'de índia': Ativistas e professor opinam sobre polêmica

Miguel Arcanjo Prado

18/02/2020 16h41

Alessandra Negrini surge como indígena no desfile do Acadêmicos do Baixo Augusta, na rua da Consolação, neste domingo (16): imagem gerou polêmica na internet – Foto: Samuel Chaves/Brazil News Blog @miguel.arcanjo UOL

A homenagem-protesto em prol dos povos indígenas feita pela atriz Alessandra Negrini, Rainha do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, no desfile do último domingo (16), em São Paulo, segue provocando polêmica nas redes sociais, com opiniões contrárias e favoráveis à artista. Para colaborar e enriquecer o debate público inteligente e democrático sobre o tema, o Blog Miguel Arcanjo ouviu pessoas que pensam de forma diferente sobre o caso.

Alguns acusam Negrini de "apropriação cultural", outros a defendem e lembram que a atriz é parceira da causa indígena e quis dar visibilidade ao tema, não tendo intenção alguma em ridicularizar os primeiros habitantes do Brasil. A APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) defendeu a atriz e disse que ela é "aliada" [veja mais abaixo].

Veja em fotos quem foi destaque no Baixo Augusta!

Alessandra se pintou de índia e colocou um penacho na cabeça para desfilar no bloco e chegou ao cortejo que reuniu 1 milhão de foliões na rua da Consolação acompanhada de importantes lideranças indígenas, entre elas Sonia Guajajara, que esteve recentemente em Hollywood ao lado de astros como Leonardo DiCaprio.

Ao repórter Artur Rodrigues, da Folha de S.Paulo, ainda durante o desfile, a atriz declarou: "A luta indígena é de todos nós e, por isso, tive a ousadia de me vestir assim", justificando que não se tratava de uma fantasia, mas de uma vestimenta de protesto contra a perseguição dos povos indígenas no Brasil atual. Na visão da atriz, ela utilizou sua imagem pública para dar visibilidade à causa.

A escritora e ativista indígena Jé Hãmãgãy: "Ousadia é dormir na aldeia depois de ameaça de expropriação" – Foto: Reprodução/Instagram @jehamagay Blog @miguel.arcanjo UOL

Ativista indígena diz que se fantasiar de índio não é ousadia

Mulher indígena, a escritora e ativista Jé Hãmãgãy se posicionou contra a justificativa da atriz. "Agora se fantasiar é ousadia? É a cara da branquitude mesmo. Que não pode ir pela primeira vez numa manifestação sem já querer botar o maior cocar na cabeça e ser pintado. A gente tem um debate antigo que diz que 'não é preciso virar índio para apoiar a causa indígena' […] Ousadia é dormir na aldeia depois de ameaça de expropriação. Ousadia é retomar uma terra roubada. Ousadia é continuar a andar trajado e pintado em plena capital e ser barrado em ônibus, Uber e estabelecimentos", falou.

A ativista indígena Avelin Buniacá: "Indígena não é fantasia, independentemente da sua amizade com indígenas, ou até engajamento na luta, isso não legitima sua pretensa homenagem" – Foto: Reprodução/Instagram @avelinbuniacakambiwa Blog @miguel.arcanjo UOL

Outra ativista indígena, Avelin Buniacá também se posicionou contra. "Indígena não é fantasia. Independente da sua amizade com indigenas, ou até engajamento na luta isso não legítima sua pretensa homenagem. Principalmente vindo de uma mulher branca, de classe alta. Mulheres indigenas são as mais vulneráveis socialmente do país, são as que mais estão expostas ao tráfico humano, à violência sexual e ao suicídio. Cadê a tal sororidade? Mulher indígena não é fantasia e nunca será", afirmou Buniacá.

E se Negrini estivesse vestida de mulher negra?

Mesmo com a explicação de Negrini, a atriz foi condenada por muitos nas redes sociais. Estes questionaram: "se ela fosse protestar em prol da negritude, surgiria na folia vestida de mulher negra?". E ainda lembraram que os povos indígenas vêm fazendo nos últimos anos uma campanha que diz que "índio não é fantasia", buscando modificar este hábito de muitos foliões brasileiros no Carnaval.

A escritora e ativista Stephanie Ribeiro: "Ninguém vai morrer não podendo ir de nega maluca e índio no Carnaval" – Foto: Reprodução/Instagram @ste_rib Blog @miguel.arcanjo UOL

A escritora, arquiteta e ativista Stephanie Ribeiro reprova Alessandra Negrini "de índia" no Carnaval. Em sua visão, este tipo de fantasia é um ato racista. "Ninguém vai morrer não podendo ir de nega maluca e índio no Carnaval", diz.

"Mas vocês [dirigindo-se a quem defende a fantasia de índio no Carnaval] falam como se fossem morrer, porque no fundo não gostam de entender que existem limites impostos por aqueles que [vocês] não consideram dignos de impor esses limites", opina.

Daniela Mercury, com peruca de cabelo black no Carnaval de Salvador 2017, ao lado de personalidades negras famosas como Vovô do Ilê Aiyê, Taís Araújo, Lázaro Ramos e Luis Miranda: 'fantasiada de mulher negra', cantora foi acusada nas redes sociais de fazer blackface – Foto: Thiago Duran/AgNews Blog @miguel.arcanjo UOL

E lembra uma polêmica semelhante no Carnaval de Salvador em 2017. "Num Carnaval, Daniela Mercury fez blackface, [e] a primeira coisa que ela fez foi chamar Lázaro [Ramos] e Taís [Araújo], o casal negro mais influente e popular do país, para estar com ela no trio. Ela sabia muito bem o que estava fazendo! Sabia as possíveis críticas que iria receber, então, usou eles de aval para isso, sem provavelmente deixar claro o que faria de fato", afirma.

"Não consigo ver diferença para o que Alessandra Negrini fez. Ela provavelmente sabia o que poderiam dizer, não é uma desinformada, ela sabia e para se certificar e se blindar, fez o que fez, da forma como fez. Não consigo parar de pensar nisso, a falta de ética e bom senso de quem provavelmente faz sempre o que quer, e não quer escutar um não", fala.

E acrescenta: "Mesmo que só uma pessoa indígena tenha se sentindo desrespeitada, o que não é o caso pelo que vi nas redes, Alessandra Negrini já deveria repensar o que fez", propõe Stephanie Ribeiro.

Ferdinando Martins: "Apropriação cultural é conceito usado de forma bastante equivocada no caso Alessandra Negrini" – Foto: Reprodução/Instagram @ferdinando.martins Blog @miguel.arcanjo UOL

Professor da USP: há distorção no uso de 'apropriação cultural'

Para Ferdinando Martins, professor doutor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), "assim como a ideia de lugar de fala é entendida de maneira distorcida nas redes sociais, apropriação cultural é outro conceito usado de forma bastante equivocada, levando internautas a condenarem a fantasia 'de índia' da Alessandra Negrini no bloco do Baixo Augusta".

Segundo Martins, "apropriação cultural não é uma pessoa em particular usar um produto de outra cultural diferente da sua. Apropriação cultural é um apagamento sistemático da origem desses produtos, apagamento este realizado por uma cultura dominante. Por exemplo, retirar da história do jazz sua origem negra é apropriação cultural, o que tem sido feito pela indústria cultural há décadas", afirma.

Alessandra Negrini foi chamada de "aliada" pela APIB, Associação dos Povos Indígenas do Brasil, que defendeu a atriz em nota oficial – Foto: Samuel Chaves/Brazil News Blog @miguel.arcanjo UOL

De acordo com o professor da USP, ler o caso de Negrini individualmente e fora de contexto, não é correto. "O que tem acontecido muitas vezes é fazerem leituras que se concentram em um significante específico, o objeto supostamente 'apropriado', ignorando qualquer referência ao contexto – ou seja, sem interpretá-lo como parte de um acontecimento. Alessandra Negrini estava acompanhadas de uma das mais importantes lideranças indígenas brasileiras, Sonia Guajajara, e sua pintura corporal foi feita por outros indígenas que a acompanhavam. Não houve nenhum apagamento do guajajaras, ao contrário", aponta o estudioso.

"Nesses casos distorcidos, penso que questões como o ressentimento e até mesmo um certo narcisismo que reivindica o monopólio da dor estejam presentes. Ou, em muitas situações, é só chatice de militante de internet mesmo. Grave, porém, é que esse tipo de perseguição tem traços fascistas. Se essa lógica distorcida for levada a sério, é melhor que esses internautas parem de comer feijoada, se não forem descendentes de negros escravizados brasileiros", diz Martins.

Alessandra Negrini chegou ao desfile do Acadêmicos do Baixo Augusta ao lado de importantes lideranças indígenas como Sonia Guajajara (de verde brilhante), com o objetivo de dar visibilidade à causa, que disse ser de todos – Foto: Samuel Chaves/Brazil News Blog @miguel.arcanjo UOL

Associação indígena defende Negrini

Por outro lado, a APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) saiu em defesa de Alessandra Negrini. Na nota, as lideranças indígenas dizem que vivem "a maior ofensiva em séculos de nossa história", citando "uma MP que tenta regularizar a grilagem, o PL da Devastação quer impor a mineração e a exploração das terras indígenas, um evangélico missionário está em um posto estratégico da FUNAI e pode provocar a extinção de povos não contactados".

E a associação prossegue: "Causa-nos indignação que uma aliada seja atacada por se juntar a nós em um protesto. Alessandra Negrini colocou seu corpo e sua voz a serviço de uma das causas mais urgentes. Fez uso de uma pintura feita por um artista indígena para visibilizar o nosso movimento. Sua construção foi cuidadosa e permanentemente dialógica, compreendendo que a luta indígena é coletiva".

A entidade lembra que "é preciso que façamos a discussão sobre apropriação cultural com responsabilidade, diferenciando quem quer se apropriar de fato das nossas culturas, ou ridiculariza-las, daqueles que colocam seu legado artístico e político à disposição da luta".

E assim a nota indígena define a atriz: "Alessandra Negrini é ativista, além de artista, e faz parte do Movimento 342 Artes, que muito vem contribuindo com o movimento indígena. Esteve conosco em momentos fundamentais. Portanto, ela conta com o nosso respeito e agradecimento. E assim será, sempre quem estiver ao nosso lado".

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Veja quem se destacou no Baixo Augusta!

Com painel de 35 metros de Elza Soares em prédio, 1 milhão de pessoas lotam o desfile do Acadêmicos do Baixo Augusta em São Paulo neste domingo (16) – Foto: Edson Lopes Jr./UOL Blog @miguel.arcanjo

Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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