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Produtora de musicais faz carta a governantes e pede ajuda na pandemia

Miguel Arcanjo Prado

26/03/2020 10h53

Cena de "Peter Pan – O Musical da Broadway": profissionais do setor necessitam de ajuda do governo, diz a produtora cultural Renata Borges – Foto: Luiz Henrique Leão – Divulgação @miguel.arcanjo UOL

Produtora cultural e responsável pela realização de grandes musicais da Broadway ao Brasil, como "Peter Pan" e "Madagascar", Renata Borges, da Touché Entretenimento, demonstra-se preocupada com toda a cadeia de profissionais que trabalham no mercado do teatro musical brasileiro diante da pandemia do coronavírus. A área, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas, movimenta R$ 1 bilhão por ano na economia e gera 13 mil empregos só em São Paulo.

Para a empresária do campo das artes cênicas, governantes precisam pensar como fazer o dinheiro chegar às mãos de cada profissional do setor. "O dinheiro parado só ajuda o produtor. A folha de pagamento não consegue ser paga. É preciso nesse momento não pensar em entrega/objeto em um momento caótico em que a entrega passa a ser o de menos", ela avalia em conversa com o Blog do Arcanjo.

Para Renata Borges, "precisamos da excepcionalidade". Ela explica o porquê: "para mantermos as pessoas com suas rendas para enfrentarem a crise. Me diga, quem tão cedo vai pensar em estar em ambientes fechado?", questiona, lembrando que o teatro foi uma das primeiras atividades profissionais prejudicadas com a crise do coronavírus. "A Secretaria Especial de Cultura precisa nesse momento humanizar a cultura. É isso que se espera de cada secretaria e seus setores: ajuda!".

A produtora cultural Renata Borges: carta aberta aos gestores públicos da Cultura em tempos de pandemia de coronavírus – Foto: Divulgação @miguel.arcanjo UOL

Veja, abaixo, a carta pública de Renata Borges às Secretarias de Cultura de todo o país:

"Prezada Secretaria de Cultura, Prezados Secretários de Cultura de todos os Estados e Prezados Secretários de Cultura Municipais

Imagino como todos estão atordoados e receosos com o que estamos vivendo. Neste momento, todos sairemos perdendo de alguma forma. Digo, todos os setores. Enfrentaremos desafios que não só se limitam à cultura, mas desafios econômicos mundiais. Diante desse cenário caótico, proponho que cada produtor possa fazer algo em prol da sociedade. Os produtores com projetos captados via Leis de Incentivo precisam ser autorizados a realizar o pagamento da folha de salários previstos (mesmo não estando com projetos em cartaz ou os que estavam na fase de execução de projetos). Na verdade, precisamos buscar uma excepcionalidade da lei aonde o produtor possa destinar o valor do projeto a fim de atender às necessidades de milhares de funcionários que trabalham com cultura. Atualmente, isso não é permitido. Os espetáculos incentivados e captados que estavam em cartaz ou prestes a estrear deixaram de pagar suas folhas salariais por todos os eventos nesse momento terem sido suspensos. Essa continuação dos pagamentos seria de vital importância para milhares de pessoas e consequentemente suas famílias, garantindo o sustento da casa, os compromissos adquiridos em função do emprego conquistado. Comprariam comida, remédios e continuariam honrando seus compromissos, já que precisam ficar em casa mas, acima de tudo, em sua maioria não estavam preparados ou sequer tinham reservas econômicas para passar por esta crise que, repito, jamais aconteceu anteriormente. A economia por que tudo que estamos presenciando, será retomada a passos pequenos. Porém, os produtores de teatros e de musicais irão ter uma dificuldade dessa retomada de mercado, pois dependerão que a confiança do público seja restabelecida no caso de frequentar ambientes fechados. Então, estima -se que tudo ficará paralisado ao longo do ano. Vocês e as empresas patrocinadoras agora precisam entender que neste momento crucial a Arte principal é a Arte de se estender a mão ao próximo. Imaginem quantas pessoas irão agradecer às empresas patrocinadoras e a cada secretaria por terem enxergado que hoje precisamos sobreviver dando condições para que as pessoas passem por essa crise com dignidade e assim mantendo o consumo habitual. Pois tendo dinheiro conseguirão alimentar toda a rede da economia e poderão honrar seus compromissos. Claro que o objeto de cada projeto para isso precisa mudar. Mas o que seria deixar de realizar uma temporada, ou apenas realizar parte , para que centenas de pessoas pudessem continuar sobrevivendo de cultura? Já imaginou o valor agregado dessa ajuda? e vocês e o Governo seriam os responsáveis por promover tal ajuda. Acredito muito que se o público pudesse escolher diante das produções seguirem ou ajudarem seus funcionários com certeza optariam por isso. Vocês estariam ajudando acima de tudo o país. Prefiro lembrar de uma produção que salvou empregos e vidas, do que uma produção que demitiu todos seus funcionários. Prefiro lembrar de empresas que enxergaram o lado humano diante dessa crise do que uma empresa que apenas entregou ingressos a colaboradores. Prefiro lembrar de Políticos que exerceram seu papel servindo ao setor, do que políticos " engessados" por um sistema sem promover ajuda no setor.
Sim, os produtores sairiam perdendo com a não arrecadação de ingressos. Mas cada um hoje precisa assumir uma parcela de sacrifício e prejuízo. E os mesmos produtores dando retorno às empresas com essas ações, que não deixam de ter cunho social, com certeza seriam novamente patrocinados pelas mesmas empresas.
Não se pode pensar em objeto, não se pode se preocupar com a produção de um espetáculo hoje se a sociedade não pode estar em lugares. Não se pode pensar em bilheteria ou fomento se o país está paralisado e o povo precisando de ajuda.
Peço um olhar cuidadoso sobre o tema. Precisamos antecipar a falência de pessoas. Não se trata apenas de falência de empresas. Precisamos agir rapidamente.
Pois o se relacionar hoje significa ajudar, contribuir e salvar. Peço a excepcionalidade diante da gravidade que hoje o país passa. Peço a Excepcionalidade para ajudar o setor em que atuo. Peço que os editais possam favorecer projetos não incentivados e consequentemente produtores que estavam em cartaz bancando os projetos com recursos próprios. Afim de que a verba dos editais permitam também que os mesmos honrem suas folhas de pagamentos. E assim impeçam o desemprego de milhares de pessoas.
Temos Senhores a oportunidade de fazermos algo pelo outro dentro da cultura. E precisa ser agora. Não vamos desperdiçar a chance de Humanizarmos a Cultura. Cultura não existe com pessoas desempregadas ou passando fome.
Atenciosamente
Renata Borges
Produtora Cultural"

>>Siga @miguel.arcanjo

 

Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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