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Como os profissionais da cultura vão sobreviver à crise do coronavírus?

Miguel Arcanjo Prado

31/03/2020 11h13

Um dos primeiros setores afetados pela crise do coronavírus, a cultura e a economia criativa enfrenta crise que gera apreensão nestes profissionais em situação de vulnerabilidade pela própria sobrevivência e de suas famílias, já que estes ficaram sem possibilidade de renda da noite para o dia; na foto, o ator Guilherme Calzavara toca trombeta na sessão da peça Roda Viva no Theatro Municipal em janeiro deste ano – Foto: Jennifer Glass/Divulgação/Oficina – Blog do @miguel.arcanjo

De uma hora para a outra, as cortinas dos teatros foram fechadas, os shows cancelados, os cinemas apagaram suas luzes, as salas de exposição se viram vazias, as coreografias cessaram, os flashes apagaram suas luzes, as livrarias fecharam suas portas, grandes festivais e eventos culturais foram cancelados, a publicidade parou seus testes e gravações. Assim como muitos outros brasileiros que se viram sem emprego no pior momento da história da humanidade, os profissionais da cultura e da economia criativa ficaram sem suas fontes de renda, navegando em um mar de incertezas que deixa estes profissionais apreensivos e perturba suas noites de sono.

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Cultura gera 1 milhão de empregos no Brasil e movimenta R$ 10,5 bilhões na economia

A cultura e a economia criativa é um importante motor da economia brasileira, país reconhecido no mundo todo por sua criatividade artística, seu principal cartão de visita. No Brasil, a cultura gera 1 milhão de empregos (o que significa 1 milhão de famílias sobrevivendo desta área), movimentando o impressionante número de 239 mil empresas e instituições, além de gerar R$ 10,5 bilhões em impostos e representar 2,64% do PIB. Só o Estado de São Paulo, onde a economia criativa demonstra sua maior força no território nacional, o setor abarca 47% do PIB criativo brasileiro, representando a cultura e a economia criativa 3,9% do PIB estadual, gerando 330 mil empregos, abastecendo 100 mil empresas e instituições paulistas. É muita gente.

Como sobreviver sem renda?, perguntam artistas

"Eu vivo de bilheteria", lembra a atriz Nany People, que está em quarentena em seu apartamento paulistano como todos os brasileiros, para preservar vidas, o que realmente importa neste momento. Mas, assim como tantos outros, ela quer saber como vai sobreviver confinada. "Não sabemos como vamos pagar o aluguel de nossos espaços nem nossos funcionários", revelam Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, da Cia. de Teatro Os Satyros, instalada na praça Roosevelt, centro paulistano, também em quarentena e apreensivos. "Não temos patrocínio. Somos mais de 60 artistas na companhia e estamos zerados sem as bilheterias", afirmam os artistas do Teat(r)o Oficina dirigido por Zé Celso, que completou 83 anos no último dia 30 de março trancado em seu apartamento, em meio à crise do coronavírus.

Estes são apenas alguns dos milhares de exemplos espalhados pelo Brasil: como os artistas brasileiros vão sobreviver nestes duros tempos que se impõem? E aí não estamos falando de artistas com contratos milionários com emissoras de TV, mas de gente de teatro, da música, do circo, da dança, do cinema e produção audiovisual independente, das artes visuais, do circo, da arte de rua, do mercado publicitário, divulgador e jornalístico especializado em cultura, além de tantas outras formas artísticas de sobrevivência cotidiana que agora estão impedidas de existir.

"Precisamos de renda e de ajuda", diz produtora

"Me diga, quem tão cedo vai pensar em estar em ambientes fechados?", pergunta a produtora de grandes musicais Renata Borges, da Touché Entretenimento, propondo que neste momento o setor cultural precisa da excepcionalidade do setor público para manter seus profissionais com renda, que precisa ser distribuída com urgência. E isso, em sua visão, significa "oferecer renda sem pensar em entrega/objeto, em um momento caótico onde isso passa a ser o de menos". Para ela as secretarias de Cultura nas esferas municipal, estadual e federal precisam pensar com urgência ações neste sentido. "É preciso ajuda", pede.

Profissionais da cultura são vulneráveis: autônomos e sem garantias

Grande parte dos profissionais da cultura e da economia criativa são autônomos, muitos deles atuando no mercado informal e vivendo de aluguel, que ganham hoje para comer amanhã, não possuindo garantia alguma de renda nestes tempos de confinamento. Se muitos profissionais de empresas de outros setores viram sua demissão chegar junto da crise do coronavírus (o que é desumano sob qualquer ótica), os profissionais da cultura sequer foram demitidos nem possuem direitos legais diante da falta repentina de renda, afinal grande parte não possui contratos de trabalho regulamentados, muitos atuam como MEI (Microempreendedor Individual) ou mesmo de forma completamente informal, o que os coloca em um lugar de vulnerabilidade social que precisa ser prontamente reconhecido pelos governantes de todas as esferas públicas.

É preciso dinheiro para sobrevivência

Ações para tentar salvar o setor cultural ainda são poucas diante do tamanho da crise no setor, pois ainda não chegam diretamente ao artista que necessita de dinheiro para colocar comida dentro de casa, pagar seu aluguel e suas contas de água, luz, gás e internet, neste momento no qual só a sobrevivência importa. É preciso garantir renda mínima também ao setor cultural neste momento.

É claro que são louváveis as iniciativas já feitas, como liberação de linha de crédito a juros baixos em iniciativa da Secretaria da Cultura e Economia Criativa de São Paulo, sob comando de Sérgio Sá Leitão, ou o mapeamento de como o setor vem enfrentando a situação no país feito no Bloco da Cultura, sob liderança de Alê Youssef.

Contudo, para além dessas ações, os profissionais da cultura e da economia criativa necessitam de renda mínima garantida para que possam sobreviver ao um dos períodos mais turbulentos da história da humanidade. Mais uma vez, este jornalista repete: agora, só importa garantia de sobrevivência. Porque, quando tudo isso passar — e há de passar, é preciso ter fé —, os profissionais da cultura e da economia criativa terão força suficiente para se reinventar. Afinal, garra nunca faltou a essa sonhadora gente.

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Sobre o autor

Eleito três vezes um dos dez melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se, Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP (Celacc-ECA) e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV Globo Minas, O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes e Risadaria. Ganhou os prêmios Nelson Rodrigues, Inspiração do Amanhã e Referência Nacional pela Ancec. Como dramaturgo, é autor da peça Entrevista com Phedra.

Sobre a coluna

Miguel Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e sociedade, com informações e entrevistas exclusivas, além de reflexões sobre o mundo da Cultura e do Entretenimento.

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